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<!DOCTYPE article PUBLIC "-//NLM//DTD JATS (Z39.96) Journal Publishing DTD v1.1 20151215//EN" "https://jats.nlm.nih.gov/publishing/1.1/JATS-journalpublishing1.dtd">
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                <journal-title>Revista Opinião Jurídica</journal-title>
                <abbrev-journal-title abbrev-type="publisher">R. Opin. Jur.</abbrev-journal-title>
            </journal-title-group>
            <issn pub-type="ppub">1806-0420</issn>
            <issn pub-type="epub">2447-6641</issn>
            <publisher>
                <publisher-name>Centro Universitário Christus</publisher-name>
            </publisher>
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            <article-id pub-id-type="doi">10.12662/2447-6641oj.v23i42.p170-200.2025</article-id>
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                <subj-group subj-group-type="heading">
                    <subject>Artigos</subject>
                </subj-group>
            </article-categories>
            <title-group>
                <article-title>Fundamentos do Movimento Direito e Literatura: uma Análise dos
                    Primeiros Sete Anos do Periódico Estadunidense Cardozo Studies in Law and
                    Literature (1989-1995)</article-title>
                <trans-title-group xml:lang="en">
                    <trans-title>Foundations of the Law and Literature Movement: an Analysis of the
                        First Seven Years of the American Journal Cardozo Studies in Law and
                        Literature (1989-1995)</trans-title>
                </trans-title-group>
                <trans-title-group xml:lang="es">
                    <trans-title>Fundamentos del Movimiento Derecho y Literatura: un Análisis de los
                        Primeros Siete Años de la Revista Estadounidense Cardozo Studies in Law and
                        Literature (1989-1995)</trans-title>
                </trans-title-group>
            </title-group>
            <contrib-group>
                <contrib contrib-type="author">
                    <contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0001-9214-6901</contrib-id>
                    <name>
                        <surname>Oliveira</surname>
                        <given-names>Amanda Muniz</given-names>
                    </name>
                    <xref ref-type="aff" rid="aff1">*</xref>
                </contrib>
            </contrib-group>
            <aff id="aff1">
                <label>*</label>
                <institution content-type="orgname">Universidade Federal de Juiz Fora</institution>
                <addr-line>
                    <city>Juiz de Fora</city>
                    <state>MG</state>
                </addr-line>
                <country country="BR">BR</country>
                <email>amanda.muniz@ufjf.br</email>
                <institution content-type="original">Professora Adjunta de Prática Penal e Processo
                    Penal na Universidade Federal de Juiz Fora. Advogada. Doutora em Direito
                    Política e Sociedade pela Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC e Mestra
                    em Teoria e História do Direito pela mesma Universidade. Coordenadora do Contra
                    Legem: Núcleo de Estudos em Direito e Humanidades (UFJF/CNPq). Membro da Italian
                    Society for Law and Literature, da Rede Brasileira de Direito e Literatura
                    (RDL), da Graphic Justice Research Alliance. Possui como temas de pesquisa:
                    crítica feminista do direito (justiça reprodutiva; feminist
                    jurisprudence/feminist legal studies) e os estudos de direito e arte (direito e
                    literatura, direito e música, law and literature; cultural legal studies;
                    direito e cultura pop). Juiz de Fora - MG - BR. E-mail:
                    amanda.muniz@ufjf.br.</institution>
            </aff>
            <author-notes>
                <fn fn-type="edited-by">
                    <label>Editora responsável:</label>
                    <p>Profa. Dra. Fayga Bedê</p>
                    <p><ext-link ext-link-type="uri"
                            xlink:href="https://orcid.org/0000-0001-6444-2631"
                            >https://orcid.org/0000-0001-6444-2631</ext-link></p>
                </fn>
            </author-notes>
            <pub-date publication-format="electronic" date-type="pub">
                <day>11</day>
                <month>07</month>
                <year>2025</year>
            </pub-date>
            <pub-date publication-format="electronic" date-type="collection">
                <season>Jan-Apr</season>
                <year>2025</year>
            </pub-date>
            <volume>23</volume>
            <issue>42</issue>
            <fpage>170</fpage>
            <lpage>200</lpage>
            <history>
                <date date-type="received">
                    <day>22</day>
                    <month>10</month>
                    <year>2024</year>
                </date>
                <date date-type="accepted">
                    <day>03</day>
                    <month>06</month>
                    <year>2025</year>
                </date>
            </history>
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                <license license-type="open-access"
                    xlink:href="http://creativecommons.org/licenses/by-nc-sa/4.0/" xml:lang="pt">
                    <license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a
                        licença Creative Commons Attribution Non-Commercial que permite uso,
                        distribuição e reprodução não-comercial irrestrito em qualquer meio, desde
                        que o trabalho original seja devidamente citado.</license-p>
                </license>
            </permissions>
            <abstract>
                <title>RESUMO</title>
                <sec>
                    <title>Contextualização:</title>
                    <p>O Movimento Direito e Literatura, iniciado nos EUA, em 1973, buscou integrar
                        as duas áreas em busca de uma formação mais crítica. O periódico
                            <italic>Cardozo Studies in Law and Literature</italic>, fundado em 1989,
                        consolidou-se como uma plataforma essencial para o desenvolvimento desse
                        movimento, promovendo debates sobre a interseção entre direito e
                        literatura.</p>
                </sec>
                <sec>
                    <title>Objetivo:</title>
                    <p>Buscamos investigar as principais discussões presentes no periódico entre
                        seus sete primeiros anos de publicação (1989-1995), classificando-os nas
                        categorias propostas por <xref ref-type="bibr" rid="B46">Peters
                            (2005)</xref> — Projeto Humanista, Projeto Hermenêutico e Projeto
                        Narrativista — e propondo a inclusão de uma nova categoria, o Projeto
                        Ético-Legal.</p>
                </sec>
                <sec>
                    <title>Método:</title>
                    <p>O estudo utilizou uma metodologia qualitativa, por meio de análise
                        bibliográfica. Todos os artigos do recorte 1989-1995 foram acessados e
                        classificados de acordo com as categorias de <xref ref-type="bibr" rid="B46"
                            >Peters (2005)</xref>, além de serem observadas contribuições que
                        justificaram a criação de uma nova categoria, o Projeto Ético-Legal.</p>
                </sec>
                <sec>
                    <title>Resultados:</title>
                    <p>Os resultados indicam que os artigos do Projeto Humanista enfatizam o
                        potencial da literatura para criticar e humanizar o direito. O Projeto
                        Hermenêutico aborda a interpretação jurídica com ênfase na retórica e na
                        semiótica, enquanto o Projeto Narrativista valoriza as narrativas de vozes
                        marginalizadas. O Projeto Ético-Legal explora a responsabilidade de
                        intelectuais e artistas em contextos de censura e poder.</p>
                </sec>
                <sec>
                    <title>Conclusões:</title>
                    <p>A pesquisa contribui para uma melhor compreensão das diferentes abordagens do
                        movimento Direito e Literatura, destacando a relevância do periódico Cardozo
                        Studies in Law and Literature na promoção de debates interdisciplinares. A
                        inclusão da nova categoria, o Projeto Ético-Legal, amplia as perspectivas de
                        análise no campo.</p>
                </sec>
            </abstract>
            <trans-abstract xml:lang="en">
                <title>ABSTRACT</title>
                <sec>
                    <title>Contextualization:</title>
                    <p>The Law and Literature Movement, initiated in the USA in 1973, sought to
                        integrate the two fields in pursuit of a more critical education. The
                        journal <italic>Cardozo Studies in Law and Literature</italic>, founded in
                        1989, established itself as an essential platform for the development of
                        this movement, promoting debates on the intersection of law and
                        literature.</p>
                </sec>
                <sec>
                    <title>Objective:</title>
                    <p>This paper aims to investigate the main discussions present in the journal
                        during its first seven years of publication (1989-1995), classifying them
                        into the categories proposed by <xref ref-type="bibr" rid="B46">Peters
                            (2005)</xref> — Humanist Project, Hermeneutic Project, and Narrativist
                        Project — while proposing the inclusion of a new category, the Ethical-Legal
                        Project.</p>
                </sec>
                <sec>
                    <title>Method:</title>
                    <p>The study utilized a qualitative methodology through bibliographic analysis.
                        All papers from the 1989-1995 period were accessed and classified according
                        to <xref ref-type="bibr" rid="B46">Peters’ (2005)</xref> categories, and
                        contributions justifying the creation of a new category, the Ethical-Legal
                        Project, were identified.</p>
                </sec>
                <sec>
                    <title>Results:</title>
                    <p>The results indicate that the papers under the Humanist Project emphasize the
                        potential of literature to critique and humanize law. The Hermeneutic
                        Project addresses legal interpretation with a focus on rhetoric and
                        semiotics, while the Narrativist Project values the narratives of
                        marginalized voices. The Ethical-Legal Project explores the responsibility
                        of intellectuals and artists in contexts of censorship and power.</p>
                </sec>
                <sec>
                    <title>Conclusions:</title>
                    <p>The research contributes to a better understanding of the different
                        approaches within the Law and Literature Movement, highlighting the
                        relevance of <italic>Cardozo Studies in Law and Literature</italic> in
                        promoting interdisciplinary debates. The inclusion of the new category, the
                        Ethical-Legal Project, expands the analytical perspectives in the field.</p>
                </sec>
            </trans-abstract>
            <trans-abstract xml:lang="es">
                <title>RESUMEN</title>
                <sec>
                    <title>Contextualización:</title>
                    <p>El Movimiento Derecho y Literatura, iniciado en los EE. UU. en 1973, buscó
                        integrar ambas áreas en busca de una formación más crítica. La revista
                            <italic>Cardozo Studies in Law and Literature</italic>, fundada en 1989,
                        se consolidó como una plataforma esencial para el desarrollo de este
                        movimiento, promoviendo debates sobre la intersección entre derecho y
                        literatura.</p>
                </sec>
                <sec>
                    <title>Objetivo:</title>
                    <p>Buscamos investigar las principales discusiones presentes en la revista
                        durante sus primeros siete años de publicación (1989-1995), clasificándolas
                        en las categorías propuestas por <xref ref-type="bibr" rid="B46">Peters
                            (2005)</xref> — Proyecto Humanista, Proyecto Hermenéutico y Proyecto
                        Narrativista — y proponiendo la inclusión de una nueva categoría, el
                        Proyecto Ético-Legal.</p>
                </sec>
                <sec>
                    <title>Método:</title>
                    <p>El estudio utilizó una metodología cualitativa mediante análisis
                        bibliográfico. Todos los artículos del período 1989-1995 fueron accesados y
                        clasificados de acuerdo con las categorías de <xref ref-type="bibr"
                            rid="B46">Peters (2005)</xref>, además de observarse contribuciones que
                        justificaron la creación de una nueva categoría, el Proyecto
                        Ético-Legal.</p>
                </sec>
                <sec>
                    <title>Resultados:</title>
                    <p>Los resultados indican que los artículos del Proyecto Humanista enfatizan el
                        potencial de la literatura para criticar y humanizar el derecho. El Proyecto
                        Hermenéutico aborda la interpretación jurídica con énfasis en la retórica y
                        la semiótica, mientras que el Proyecto Narrativista valora las narrativas de
                        voces marginadas. El Proyecto Ético-Legal explora la responsabilidad de
                        intelectuales y artistas en contextos de censura y poder.</p>
                </sec>
                <sec>
                    <title>Conclusiones:</title>
                    <p>La investigación contribuye a una mejor comprensión de los diferentes
                        enfoques del movimiento Derecho y Literatura, destacando la relevancia de la
                        revista <italic>Cardozo Studies in Law and Literature</italic> en la
                        promoción de debates interdisciplinarios. La inclusión de la nueva
                        categoría, el Proyecto Ético-Legal, amplía las perspectivas de análisis en
                        el campo.</p>
                </sec>
            </trans-abstract>
            <kwd-group xml:lang="pt">
                <title>Palavras-chave:</title>
                <kwd>direito e literatura</kwd>
                <kwd>Cardozo Studies in Law and Literature</kwd>
                <kwd>periódico científico</kwd>
            </kwd-group>
            <kwd-group xml:lang="en">
                <title>Keywords:</title>
                <kwd>law and literature</kwd>
                <kwd>Cardozo Studies in Law and Literature</kwd>
                <kwd>academic journal</kwd>
            </kwd-group>
            <kwd-group xml:lang="es">
                <title>Palabras clave:</title>
                <kwd>derecho y literatura</kwd>
                <kwd><italic>Cardozo Studies in Law and Literature</italic></kwd>
                <kwd>revista científica</kwd>
            </kwd-group>
        </article-meta>
    </front>
    <body>
        <sec id="sec1">
            <title>1 INTRODUÇÃO</title>

            <p>O Movimento Direito e Literatura, iniciado nos Estados Unidos na década de 1970,
                surgiu como uma resposta à rigidez das interpretações jurídicas tradicionais,
                influenciadas pelo tecnicismo do direito positivista (<xref ref-type="bibr"
                    rid="B37">Minda, 1995</xref>) e pelo viés utilitarista da Análise Econômica do
                Direito (<xref ref-type="bibr" rid="B39">Oliveira, 2019a</xref>). O marco inicial
                desse movimento pode ser associado à obra <italic>The Legal Imagination</italic>, de
                    <xref ref-type="bibr" rid="B63">White (1973)</xref>, que propôs o uso da
                literatura como ferramenta para aprimorar a prática jurídica. White argumentava que
                o direito não deveria ser visto como uma ciência exata, mas como uma arte, capaz de
                incorporar elementos narrativos para promover a empatia e a compreensão moral (<xref
                    ref-type="bibr" rid="B46">Peters, 2005</xref>).</p>

            <p>Esse movimento não só desafiava as concepções tradicionais de ensino jurídico, mas
                também introduzia uma abordagem interdisciplinar, ao integrar a literatura e as
                ciências humanas na interpretação de leis e decisões judiciais. A literatura, com
                suas narrativas complexas e suas reflexões sobre a condição humana, passou a ser
                vista como uma forma de enriquecer o estudo do direito, oferecendo uma perspectiva
                mais crítica e sensível (<xref ref-type="bibr" rid="B52">Smith, 1979</xref>).</p>

            <p>O periódico <italic>Cardozo Studies in Law and Literature</italic>, fundado em 1988,
                com primeira publicação em 1989, consolidou-se como o periódico do movimento direito
                e literatura. Ligado à Faculdade de Direito Cardozo, da Universidade Yeshiva, em
                Nova Iorque, o periódico foi uma resposta à crescente demanda por uma plataforma que
                permitisse debates profundos sobre a interseção entre essas duas áreas (<xref
                    ref-type="bibr" rid="B39">Oliveira, 2019a</xref>). Benjamin Cardozo, jurista que
                empresta seu nome à faculdade e ao periódico, já havia contribuído para o
                desenvolvimento dessa vertente com seus trabalhos que destacavam a relação entre a
                qualidade literária do direito e a interpretação jurídica (<xref ref-type="bibr"
                    rid="B56">Trindade; Bernsts, 2017</xref>).</p>

            <p>Assim, os primeiros anos do periódico coincidiram com um momento de expansão do
                movimento “Direito e Literatura” nos Estados Unidos, e a revista desempenhou um
                papel crucial na promoção de debates acadêmicos sobre como as narrativas literárias
                podem influenciar e enriquecer a prática jurídica. Nesse contexto, o periódico se
                destacou ao publicar artigos que exploravam desde a análise de textos literários em
                contexto jurídico até discussões teóricas sobre a própria natureza da intersecção
                entre essas duas disciplinas.</p>

            <p>Entre 1989 e 1995, foram publicadas diversas discussões que refletiram as principais
                abordagens teóricas que estruturam o movimento. Durante esse período, emergiram
                debates que podem ser categorizados nas três grandes correntes identificadas por
                    <xref ref-type="bibr" rid="B46">Peters (2005)</xref>: o Projeto Humanista, o
                Projeto Hermenêutico e o Projeto Narrativista. O Projeto Humanista, nascido nos anos
                1970, buscava reconectar o direito com a sensibilidade por meio da literatura,
                oferecendo uma visão ética e humanística ao campo jurídico por meio do uso de textos
                literários nas salas de aula e da análise de representações jurídicas na literatura.
                Já o Projeto Hermenêutico, que dominou os anos 1980, enfatizava o uso de teorias
                literárias para a interpretação crítica de textos jurídicos, questionando a
                objetividade das normas. Por fim, o Projeto Narrativista, que ganhou força nos anos
                1990, enfocava o poder transformador das narrativas presentes no direito,
                especialmente aquelas oriundas de vozes marginalizadas, como mulheres e grupos
                oprimidos.</p>

            <p>A partir das análises dos artigos publicados no periódico, foi possível, identificar
                ainda, uma quarta categoria a que chamamos de Projeto Ético-Político. Essa
                perspectiva tem como foco os dilemas éticos, especialmente em contextos sociais e
                políticos, abordando temas como censura, liberdade de expressão, opressão estatal e
                o papel dos artistas e dos intelectuais na sociedade.</p>

            <p>Assim, o presente artigo busca investigar as principais discussões realizadas em cada
                uma dessas categorias nos artigos publicados no periódico <italic>Cardozo Studies in
                    Law and Literature</italic> entre seus sete anos iniciais, 1989 e 1995. A
                investigação se justifica, pois oferece uma visão pioneira sobre como as discussões
                iniciais ajudaram a consolidar esse campo de estudos e a moldar suas bases teóricas,
                permitindo que futuros pesquisadores possam aplicar essas ferramentas analíticas em
                seus próprios estudos sobre a intersecção entre direito e literatura.</p>

            <p>Para tanto, a pesquisa foi estruturada da seguinte maneira: primeiro, são
                apresentados os aspectos metodológicos utilizados no artigo; em seguida, realiza-se
                uma comparação qualitativa entre essas publicações, classificando-as nas diferentes
                categorias e apontando suas semelhanças e diferenças; por fim, são apresentadas as
                contribuições destes textos à consolidação do movimento de direito e literatura nos
                Estados Unidos.</p>
        </sec>
        <sec sec-type="methods">
            <title>2 ASPECTOS METODOLÓGICOS</title>

            <p>Para investigar as principais abordagens presentes nos artigos do periódico
                    <italic>Cardozo Studies in Law and Literature (CSLL)</italic> entre seus sete
                anos iniciais, 1989 e 1995, classificando-os de acordo com as categorias de <xref
                    ref-type="bibr" rid="B46">Peters (2005)</xref> e a nova categoria proposta,
                acessamos todos os textos do período indicado no mencionado recorte temporal. O
                periódico está catalogado na base <italic>Taylor &amp; Francis</italic> no endereço
                    <ext-link ext-link-type="uri"
                    xlink:href="https://www.tandfonline.com/journals/rlal20"
                    >https://www.tandfonline.com/journals/rlal20</ext-link> e possui um acervo
                detalhado de todos os seus volumes: desde a primeira edição, publicada em 1989, até
                a mais recente no momento de escrita deste artigo, edição 3 de 2024.</p>

            <p>Entre 1989 e 1995, chegamos ao seguinte resultado de volumes e edições, indicado no
                    <xref ref-type="table" rid="t1">Quadro 1</xref>:</p>
            <table-wrap id="t1">
                <label>Quadro 1</label>
                <caption>
                    <title>Edições da CSLL entre 1989 – 1995</title>
                </caption>
                <table>
                    <thead>
                        <tr>
                            <th valign="top" align="center">Ano</th>
                            <th valign="top" align="center">Volume</th>
                            <th valign="top" align="center">Edição</th>
                            <th valign="top" align="center">Tema</th>
                            <th valign="top" align="center">Link de Acesso</th>
                        </tr>
                    </thead>
                    <tbody>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="center">1989</td>
                            <td valign="top" align="center">1</td>
                            <td valign="top" align="center">1</td>
                            <td valign="top" align="center">Sem tema</td>
                            <td valign="top" align="center"><ext-link ext-link-type="uri"
                                    xlink:href="https://www.tandfonline.com/toc/rlal20/1/1?nav=tocList"
                                    >https://www.tandfonline.com/toc/rlal20/1/1?nav=tocList</ext-link></td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="center">1989</td>
                            <td valign="top" align="center">1</td>
                            <td valign="top" align="center">2</td>
                            <td valign="top" align="center">Sem tema</td>
                            <td valign="top" align="center"><ext-link ext-link-type="uri"
                                    xlink:href="https://www.tandfonline.com/toc/rlal20/1/2?nav=tocList"
                                    >https://www.tandfonline.com/toc/rlal20/1/2?nav=tocList</ext-link></td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="center">1990</td>
                            <td valign="top" align="center">2</td>
                            <td valign="top" align="center">1</td>
                            <td valign="top" align="center">O Escritor e o Estado<sup><xref
                                        ref-type="fn" rid="fn1">1</xref></sup></td>
                            <td valign="top" align="center"><ext-link ext-link-type="uri"
                                    xlink:href="https://www.tandfonline.com/toc/rlal20/2/1?nav=tocList"
                                    >https://www.tandfonline.com/toc/rlal20/2/1?nav=tocList</ext-link></td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="center">1990</td>
                            <td valign="top" align="center">2</td>
                            <td valign="top" align="center">2</td>
                            <td valign="top" align="center">Lâmpada à Meia-Noite: uma peça sobre
                                        Galileu<sup><xref ref-type="fn" rid="fn2"
                                >2</xref></sup></td>
                            <td valign="top" align="center"><ext-link ext-link-type="uri"
                                    xlink:href="https://www.tandfonline.com/toc/rlal20/2/2?nav=tocList"
                                    >https://www.tandfonline.com/toc/rlal20/2/2?nav=tocList</ext-link></td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="center">1991</td>
                            <td valign="top" align="center">3</td>
                            <td valign="top" align="center">1</td>
                            <td valign="top" align="center">Sem tema</td>
                            <td valign="top" align="center"><ext-link ext-link-type="uri"
                                    xlink:href="https://www.tandfonline.com/toc/rlal20/3/1?nav=tocList"
                                    >https://www.tandfonline.com/toc/rlal20/3/1?nav=tocList</ext-link></td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="center">1991</td>
                            <td valign="top" align="center">3</td>
                            <td valign="top" align="center">2</td>
                            <td valign="top" align="center">Sem tema</td>
                            <td valign="top" align="center"><ext-link ext-link-type="uri"
                                    xlink:href="https://www.tandfonline.com/toc/rlal20/3/2?nav=tocList"
                                    >https://www.tandfonline.com/toc/rlal20/3/2?nav=tocList</ext-link></td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="center">1992</td>
                            <td valign="top" align="center">4</td>
                            <td valign="top" align="center">1</td>
                            <td valign="top" align="center">Sem tema</td>
                            <td valign="top" align="center"><ext-link ext-link-type="uri"
                                    xlink:href="https://www.tandfonline.com/toc/rlal20/4/1?nav=tocList"
                                    >https://www.tandfonline.com/toc/rlal20/4/1?nav=tocList</ext-link></td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="center">1992</td>
                            <td valign="top" align="center">4</td>
                            <td valign="top" align="center">2</td>
                            <td valign="top" align="center">Simpósio sobre Semiótica e
                                        Direito<sup><xref ref-type="fn" rid="fn3"
                                >3</xref></sup></td>
                            <td valign="top" align="center"><ext-link ext-link-type="uri"
                                    xlink:href="https://www.tandfonline.com/toc/rlal20/4/2?nav=tocList"
                                    >https://www.tandfonline.com/toc/rlal20/4/2?nav=tocList</ext-link></td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="center">1993</td>
                            <td valign="top" align="center">5</td>
                            <td valign="top" align="center">1</td>
                            <td valign="top" align="center">Edição temática sobre O Mercador de
                                        Veneza<sup><xref ref-type="fn" rid="fn4">4</xref></sup></td>
                            <td valign="top" align="center"><ext-link ext-link-type="uri"
                                    xlink:href="https://www.tandfonline.com/toc/rlal20/5/1?nav=tocList"
                                    >https://www.tandfonline.com/toc/rlal20/5/1?nav=tocList</ext-link></td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="center">1993</td>
                            <td valign="top" align="center">5</td>
                            <td valign="top" align="center">2</td>
                            <td valign="top" align="center">Sem tema</td>
                            <td valign="top" align="center"><ext-link ext-link-type="uri"
                                    xlink:href="https://www.tandfonline.com/toc/rlal20/5/2?nav=tocList"
                                    >https://www.tandfonline.com/toc/rlal20/5/2?nav=tocList</ext-link></td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="center">1994</td>
                            <td valign="top" align="center">6</td>
                            <td valign="top" align="center">1</td>
                            <td valign="top" align="center">Sem tema</td>
                            <td valign="top" align="center"><ext-link ext-link-type="uri"
                                    xlink:href="https://www.tandfonline.com/toc/rlal20/6/1?nav=tocList"
                                    >https://www.tandfonline.com/toc/rlal20/6/1?nav=tocList</ext-link></td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="center">1994</td>
                            <td valign="top" align="center">6</td>
                            <td valign="top" align="center">2</td>
                            <td valign="top" align="center">Sem tema</td>
                            <td valign="top" align="center"><ext-link ext-link-type="uri"
                                    xlink:href="https://www.tandfonline.com/toc/rlal20/6/2?nav=tocList"
                                    >https://www.tandfonline.com/toc/rlal20/6/2?nav=tocList</ext-link></td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="center">1995</td>
                            <td valign="top" align="center">7</td>
                            <td valign="top" align="center">1</td>
                            <td valign="top" align="center">Sem tema</td>
                            <td valign="top" align="center"><ext-link ext-link-type="uri"
                                    xlink:href="https://www.tandfonline.com/toc/rlal20/7/1?nav=tocList"
                                    >https://www.tandfonline.com/toc/rlal20/7/1?nav=tocList</ext-link></td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="center">1995</td>
                            <td valign="top" align="center">7</td>
                            <td valign="top" align="center">2</td>
                            <td valign="top" align="center">Homenagem à W. Wolfgang
                                        Holdheim<sup><xref ref-type="fn" rid="fn5"
                                >5</xref></sup></td>
                            <td valign="top" align="center"><ext-link ext-link-type="uri"
                                    xlink:href="https://www.tandfonline.com/toc/rlal20/7/2?nav=tocList"
                                    >https://www.tandfonline.com/toc/rlal20/7/2?nav=tocList</ext-link></td>
                        </tr>
                    </tbody>
                </table>
                <table-wrap-foot>
                    <attrib>Fonte: autoria própria.</attrib>
                </table-wrap-foot>
            </table-wrap>

            <p>Importante pontuar que, de 1989 até 2001, o periódico se chamava <italic>Cardozo
                    Studies in Law and Literature</italic>, mas que, a partir de 2002, passou a se
                chamar, apenas, <italic>Law &amp; Literature.</italic> Como nosso foco de análise
                recai sobre os artigos de 1989 a 1995, quando o periódico ainda possuía a
                nomenclatura antiga, iremos utilizá-la ao longo do artigo.</p>

            <p>Outra mudança notável se refere ao número de edições publicadas por ano. Até 2001, o
                periódico publicava duas edições anuais. A partir de 2002, passa a publicar três
                edições por ano. O número de textos publicados em cada edição é variável: entre
                artigos científicos, ensaios, resenhas, entrevistas, e outros tipos de texto, os
                volumes que tiveram o menor número de textos fora: 1994, ed. 2, e 1995, ed. 1, com 5
                textos cada; já os que tiveram maior número foram os de 1990, ed. 1, e 1990, ed. 2,
                com 16 textos cada.</p>

            <p>No total, encontramos 133 textos dos quais 89 são os artigos científicos que iremos
                analisar e 44 são textos de outros gêneros textuais que serão excluídos da análise,
                conforme indicado no <xref ref-type="fig" rid="f1">Gráfico 1</xref>:</p>

            <p>
                <fig id="f1">
                    <label>Gráfico 1</label>
                    <caption>
                        <title>Distribuição dos Tipos de Texto</title>
                    </caption>
                    <graphic xlink:href="2447-6641-oj-23-42-0170-gf01.tif"/>
                    <attrib>Fonte: autoria própria.</attrib>
                </fig>
            </p>

            <p>Por fim, é importante apresentar com mais detalhes as categorias propostas por <xref
                    ref-type="bibr" rid="B46">Peters (2005)</xref> e a nova categoria proposta ao
                classificar as abordagens do movimento de direito e literatura.</p>

            <p>Conforme a autora, a primeira abordagem emergente é o <italic>Projeto
                    Humanista</italic>, que teria se iniciado com a publicação de <italic>The Legal
                    Imagination</italic>, de <xref ref-type="bibr" rid="B63">White (1973)</xref>, um
                manual voltado a aprimorar a interpretação e escrita de alunos do direito por meio
                da literatura. Essa abordagem enxerga a literatura como uma maneira de devolver ao
                direito um senso de humanidade, algo que, segundo seus proponentes, o direito teria
                perdido ao longo do tempo com a tecnicidade excessiva. Seus defensores argumentam
                que o direito deveria ser visto não como uma ciência fria e técnica, mas como uma
                arte. A literatura, por sua vez, serviria para relembrar os juristas da importância
                dos valores e da experiência humana por trás dos processos e das decisões
                jurídicas.</p>

            <p>As principais contribuições do projeto humanista incluem:</p>

            <list list-type="alpha-lower">
                <list-item>
                    <p>o uso da literatura como ferramenta de crítica ao direito, que transforma a
                        realidade em algo artificial e codificado, desconsiderando as complexidades
                        humanas;</p>
                </list-item>

                <list-item>
                    <p>análise de representações sociais relacionadas ao direito, como
                        criminalidade, justiça, punição, dentre outros;</p>
                </list-item>

                <list-item>
                    <p>uso da literatura como ferramenta de ensino do direito, capaz de fornecer
                        modelos de excelência retórica e aprimorar habilidades argumentativas.</p>
                </list-item>
            </list>

            <p>A segunda abordagem identificada por <xref ref-type="bibr" rid="B46">Peters
                    (2005)</xref> é o <italic>Projeto Hermenêutico</italic>, que emerge no fim dos
                anos 1970 e início dos anos 1980 e utiliza teorias literárias para interpretar
                textos jurídicos, especialmente no que se refere à análise dos significados e à
                construção de sentidos. Esse projeto propõe que as leis e as decisões judiciais
                sejam vistas não como documentos fixos e imutáveis, mas como textos que estão
                abertos a diferentes leituras e interpretações, dependendo do contexto cultural,
                histórico e social em que são analisados.</p>

            <p>Alguns de seus pontos centrais incluem:</p>

            <list list-type="alpha-lower">
                <list-item>
                    <p>desconstrução da interpretação literal, devendo ser levado em consideração os
                        contextos que cercam a criação de um texto, bem como os efeitos que suas
                        interpretações podem ter na sociedade;</p>
                </list-item>
                <list-item>
                    <p>debate sobre o originalismo, ou seja, sobre a ideia de que o significado de
                        um texto deve ser interpretado exatamente como os autores originais
                        pretendiam, discutindo assim os limites da interpretação;</p>
                </list-item>
                <list-item>
                    <p>adoção de teorias literárias pós-estruturalistas, pois, dentro dessa
                        abordagem, frequentemente, são usados conceitos de teóricos como Derrida e
                        Foucault, que sugerem que o sentido dos textos é indeterminado e que as
                        interpretações sempre envolvem algum nível de subjetividade e poder e;</p>
                </list-item>
                <list-item>
                    <p>foco na interpretação crítica, de forma a identificar os pressupostos ocultos
                        e as ideologias subjacentes aos textos jurídicos, entendendo não apenas o
                        que o texto diz, mas o que ele não diz.</p>
                </list-item>
            </list>

            <p>Por fim, <xref ref-type="bibr" rid="B46">Peters (2005)</xref> identifica o
                    <italic>Projeto Narrativista</italic>, que surge no início dos anos 1990 e está
                focado na análise de como as narrativas – especialmente aquelas relacionadas a casos
                jurídicos e a experiências pessoais – influenciam a construção e a aplicação do
                direito. Essa abordagem enfatiza o poder das histórias contadas no contexto
                jurídico, particularmente aquelas que revelam vozes marginalizadas ou oprimidas, que
                de outra forma não seriam ouvidas no sistema jurídico tradicional. Esse projeto se
                desenvolveu a partir de várias epistemologias, incluindo a teoria feminista, a
                teoria crítica da raça e o estudo da narrativa como uma ferramenta para expor as
                estruturas de poder e injustiça presentes na sociedade.</p>

            <p>Seus principais aspectos incluem:</p>

            <list list-type="alpha-lower">
                <list-item>
                    <p>uso de narrativas reais para humanizar o direito, pois o direito pode se
                        beneficiar ao prestar mais atenção às histórias das pessoas envolvidas em
                        processos jurídicos narrando suas experiências de vida, sofrimento e
                        luta;</p>
                </list-item>
                <list-item>
                    <p>destacar histórias de grupos marginalizados, como minorias étnicas, mulheres
                        e pessoas em condições de vulnerabilidade social no intuito de
                        desestabilizar as narrativas hegemônicas do direito que, muitas vezes,
                        ignoram ou distorcem as realidades vividas por essas pessoas;</p>
                </list-item>
                <list-item>
                    <p>crítica ao formalismo jurídico que suprime a complexidade das vidas humanas,
                        transformando experiências ricas e multifacetadas em fatos secos para serem
                        julgados de acordo com regras abstratas;</p>
                </list-item>
                <list-item>
                    <p>relação entre direito e narrativa, de forma a expor o próprio direito como
                        uma forma de narrativa que molda a forma como entendemos a justiça e o
                        funcionamento da sociedade e;</p>
                </list-item>
                <list-item>
                    <p>poder terapêutico da narração já que ouvir e contar histórias de opressão ou
                        sofrimento pode ser uma maneira de curar feridas e promover a justiça
                        social.</p>
                </list-item>
            </list>

            <p>Além desses três projetos, nossa análise identificou uma outra proposta que aparece
                nos textos da revista, a que denominados <italic>Projeto Ético-Legal</italic> e
                aparece pela primeira vez já na primeira edição de 1989 do CSLL (<xref
                    ref-type="bibr" rid="B31">Kornstein, 1989</xref>; <xref ref-type="bibr"
                    rid="B13">Fuller, 1989</xref>). Essa categoria trata das interações entre a
                postura ética de artistas e intelectuais, os impactos da arte no mundo real e
                questões relativas à censura e liberdade de expressão.</p>

            <p>Suas abordagens incluem:</p>

            <list list-type="alpha-lower">
                <list-item>
                    <p>papel dos artistas e dos intelectuais na sociedade, no sentido de analisar
                        suas posturas éticas e como eles podem moldar debates jurídicos e
                        político;</p>
                </list-item>
                <list-item>
                    <p>impacto ético-político da arte, investigando como obras de arte influenciam
                        questões sociais no mundo real;</p>
                </list-item>
                <list-item>
                    <p>liberdade de Expressão e censura, analisando casos em que artistas foram
                        perseguidos por suas obras em regimes ditos democráticos e em regimes
                        totalitários.</p>
                </list-item>
            </list>

            <p>O <xref ref-type="table" rid="t2">Quadro 2</xref> busca sistematizar cada um dos
                projetos para melhor compreensão de suas diferenciações:</p>
            <table-wrap id="t2">
                <label>Quadro 2</label>
                <caption>
                    <title>Os projetos do movimento de direito e literatura conforme <xref
                            ref-type="bibr" rid="B46">Peters (2005)</xref></title>
                </caption>
                <table>
                    <thead>
                        <tr>
                            <th valign="top" align="center">Projeto</th>
                            <th valign="top" align="center">Características Principais</th>
                            <th valign="top" align="center">Exemplos de teóricos</th>
                            <th valign="top" align="center">Início</th>
                        </tr>
                    </thead>
                    <tbody>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">Projeto Humanista</td>
                            <td valign="top" align="left">• Usa a literatura para humanizar o ensino
                                e a prática do direito;<break/>• Foca em como a literatura
                                representa questões sociais diversas;<break/>• Destaca a arte como
                                fonte de crítica à tecnicidade do direito.</td>
                            <td valign="top" align="left">James Boyd White, Richard Weisberg, J.
                                Allen Smith.</td>
                            <td valign="top" align="left">Anos 1970</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">Projeto Hermenêutico</td>
                            <td valign="top" align="left">• Usa teorias interpretativas da
                                linguística e literatura para interpretar textos jurídicos;<break/>•
                                Foca em debater os limites da interpretação;<break/>• Destaca a
                                interpretação como fonte de crítica ao direito, não se preocupa com
                                uma obra em específico.</td>
                            <td valign="top" align="left">Ronald Dworkin, Stanley Fish, Owen
                                Fiss.</td>
                            <td valign="top" align="left">Anos 1980</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">Projeto Narrativista</td>
                            <td valign="top" align="left">• Usa narrativas reais (depoimentos,
                                testemunhos) e não a arte para humanizar o ensino e a prática do
                                direito.<break/>• Propõe que o direito é, em si, uma forma de
                                narrativa.<break/>• Foca na realidade social (não na arte) e destaca
                                a narrativa do real como fonte de crítica ao direito. </td>
                            <td valign="top" align="left">Robert Cover; Richard Delgado, Kimberlé
                                Crenshaw, Patricia Williams, Mari Matsuda.</td>
                            <td valign="top" align="left">Anos 1900</td>
                        </tr>
                        <tr>
                            <td valign="top" align="left">Projeto Ético-Legal</td>
                            <td valign="top" align="left">• Usa a figura dos artistas e intelectuais
                                para expor dilemas ético-jurídicos;<break/>• Foca em debater a
                                atuação dos artistas e intelectuais nas sociedades democráticas e
                                totalitárias;<break/>• Destaca os ataques a essas figuras (a partir
                                de censura ou qualquer outra forma de opressão) como fonte de
                                crítica ao direito. </td>
                            <td valign="top" align="left">Daniel Kornstein, Jack Fuller, Janos Kiss,
                                Adam Michnik.</td>
                            <td valign="top" align="left">Aparece em textos de 1989.</td>
                        </tr>
                    </tbody>
                </table>
                <table-wrap-foot>
                    <attrib>Fonte: autoria própria.</attrib>
                </table-wrap-foot>
            </table-wrap>
            <p>Explicadas as categorias de análise que iremos utilizar, bem como suas semelhanças e
                diferenças, passamos à classificação e à análise dos artigos científicos encontrados
                na CSLL (1989-1985), começando pelo <italic>Projeto Humanista</italic>.</p>
        </sec>
        <sec>
            <title>3 O PROJETO HUMANISTA NO CSLL (1989-1995)</title>

            <p>Dentre os textos analisados, foi possível observar que a maioria, 59 artigos no
                total, pode ser classificada dentro do Projeto Humanista, visto que se propõe a
                analisar elementos que foram representados em alguma obra literária ou reafirmar a
                importância de se usar a literatura para humanizar o direito (assertiva com a qual
                não concordamos, importante ressaltar; nos aproximamos da perspectiva de <xref
                    ref-type="bibr" rid="B40">Oliveira, 2019b</xref>). A classificação por
                categorias está ilustrada no <xref ref-type="fig" rid="f2">Gráfico 2</xref>:</p>

            <p>
                <fig id="f2">
                    <label>Gráfico 2</label>
                    <caption>
                        <title>Classificação dos artigos por categoria</title>
                    </caption>
                    <graphic xlink:href="2447-6641-oj-23-42-0170-gf02.tif"/>
                    <attrib>Fonte: autoria própria.</attrib>
                </fig>
            </p>

            <p>Ademais, o <xref ref-type="fig" rid="f3">Gráfico 3</xref> nos mostra a quantidade de
                artigos do Projeto Humanista publicados por ano, apresentando seu ápice no ano de
                1993, com 14 publicações:</p>

            <p>
                <fig id="f3">
                    <label>Gráfico 3</label>
                    <caption>
                        <title>Quantidade de Artigos do Projeto Humanista por ano</title>
                    </caption>
                    <graphic xlink:href="2447-6641-oj-23-42-0170-gf03.tif"/>
                    <attrib>Fonte: autoria própria.</attrib>
                </fig>
            </p>

            <p>Esse ápice de publicações em 1993 pode ser explicado, já que a edição 1 desse ano
                teve como tema especial <italic>O Mercador de Veneza</italic>, reunindo diversos
                artigos que se preocupavam a debater o direito a partir desta obra (característica
                central do Projeto Humanista) e a edição 2, embora não fosse temática, recebeu
                diversos artigos respondendo àqueles da edição 1.</p>

            <p>Posto isso, é relevante resgatar os debates travados nestes artigos. A princípio,
                destaca-se que três deles se voltam a uma perspectiva mais teórico-argumentativa, no
                sentido de reforçar as bases do Projeto Humanista, seus objetivos e, especialmente,
                sua relevância. <xref ref-type="bibr" rid="B3">Ball (1989)</xref> discute como a
                interdisciplinaridade entre direito e literatura pode enriquecer a compreensão do
                direito, defendendo que a literatura oferece uma maneira de explorar a complexidade
                moral e a responsabilidade. Ele reflete sobre como a narrativa literária pode
                revelar dimensões da prática jurídica que, de outra forma, poderiam passar
                despercebidas, como a violência subjacente às decisões judiciais. <xref
                    ref-type="bibr" rid="B9">Dunlop (1991)</xref>, em sua defesa da inclusão de
                estudos literários nas faculdades de direito, argumenta que a literatura oferece uma
                visão mais rica e crítica do direito ao expor as suposições sobre racionalidade e
                justiça que o sistema jurídico frequentemente negligencia. Ele acredita que a
                literatura expande a compreensão jurídica, mas sua análise se concentra no impacto
                pedagógico da leitura de obras literárias para alunos de direito.</p>

            <p><xref ref-type="bibr" rid="B44">Pantazakos (1995)</xref> faz uma reflexão histórica
                sobre o movimento Direito e Literatura, enfatizando a importância de humanizar o
                sistema jurídico por meio da literatura. Ele defende que a narrativa literária pode
                fornecer valores culturais que enriquecem a prática jurídica, criando uma crítica
                contra a abordagem puramente técnica e normativa da lei. Segundo <xref
                    ref-type="bibr" rid="B44">Pantazakos (1995)</xref>, a interação entre direito e
                literatura deve "humanizar" os operadores do direito, permitindo que eles
                transcendam os limites da racionalidade estrita e abracem uma perspectiva mais
                compassiva e cultural.</p>

            <p>Comparando as publicações entre si, percebemos que eles convergem em três aspectos
                principais:</p>

            <list list-type="alpha-lower">
                <list-item>
                    <p>Enfatizam a importância de integrar estudos literários ao ensino jurídico
                        como uma forma de enriquecer a compreensão do direito;</p>
                </list-item>
                <list-item>
                    <p>Concordam que a literatura permite uma crítica ao direito de uma forma que
                        textos jurídicos tradicionais não conseguem e;</p>
                </list-item>
                <list-item>
                    <p>Há um consenso de que a inclusão da literatura no estudo do direito serve
                        como uma ferramenta educacional que expande a empatia e a compreensão dos
                        futuros juristas, ajudando-os a entender melhor as nuances das situações
                        humanas e os dilemas éticos que enfrentam.</p>
                </list-item>
            </list>

            <p>Todavia, são as discordâncias que merecem mais comentários. A partir da análise dos
                textos, foi possível identificar três pontos divergentes:</p>

            <list list-type="alpha-lower">
                <list-item>
                    <p>enquanto <xref ref-type="bibr" rid="B3">Ball (1989)</xref> sugere que a
                        prática e a teoria devem andar juntas e que o movimento direito e literatura
                        deve focar mais na prática do que na justificação teórica; <xref
                            ref-type="bibr" rid="B9">Dunlop (1991)</xref> é mais crítico sobre o
                        movimento, destacando que a falta de uma teoria basilar pode ser uma
                        fraqueza, levando a um ecletismo metodológico que pode diluir seu
                        impacto;</p>
                </list-item>

                <list-item>
                    <p><xref ref-type="bibr" rid="B44">Pantazakos (1995)</xref> oferece uma
                        perspectiva histórica mais ampla e propõe que o movimento deve adotar uma
                        abordagem inspirada na tradição clássica judaico-helenística para entender a
                        relação entre direito e literatura. Ele sugere que essa abordagem ajuda a
                        reconciliar a aparente dicotomia entre o direito como ciência e humanismo,
                        algo que não é tão explorado nos textos de <xref ref-type="bibr" rid="B3"
                            >Ball (1989)</xref> e <xref ref-type="bibr" rid="B9">Dunlop
                            (1991)</xref>, que focam mais na prática contemporânea;</p>
                </list-item>

                <list-item>
                    <p><xref ref-type="bibr" rid="B9">Dunlop (1991)</xref> adota uma postura
                        pragmática e consciente das críticas ao movimento. Ele reconhece que algumas
                        pessoas veem a inclusão da literatura nas faculdades de direito como algo
                        desnecessário ou difícil de justificar. Por isso, <xref ref-type="bibr"
                            rid="B9">Dunlop (1991)</xref> defende que é importante explicar
                        claramente os benefícios dessa abordagem e construir uma base mais sólida
                        para que ela seja aceita nos Cursos de Direito. Em outras palavras, ele vê a
                        necessidade de responder a essas críticas de forma concreta, talvez
                        delineando melhor como a literatura pode melhorar habilidades práticas, como
                        a argumentação e a análise crítica, além de promover empatia e compreensão
                        dos contextos sociais. <xref ref-type="bibr" rid="B3">Ball (1989)</xref>,
                        por outro lado, é mais otimista e assertivo na defesa da literatura como
                        parte essencial do ensino jurídico. Ele argumenta que sua inclusão
                        curricular não precisa ser defendida, mas sim celebrada, porque ela
                        naturalmente expande a capacidade dos futuros advogados de lidar com a
                        complexidade da vida humana e das questões jurídicas.</p>
                </list-item>
            </list>

            <p>Esses três pontos demonstram como, mesmo concordando com a premissa basilar do
                Projeto Humanista, o método de sua aplicação não é um consenso entre seus
                entusiastas: devemos olhar para a literatura como fonte histórica? Ou devemos
                utilizá-la para debater questões do presente? Acreditamos que as duas opções são
                possíveis e não excludentes, visto que uma das grandes características do movimento
                é justamente a multiplicidade de opções possíveis ao juntar direito e
                literatura.</p>

            <p>Por outro lado, há o reconhecimento de que essa abordagem é alvo de duras críticas,
                como já demonstrado por <xref ref-type="bibr" rid="B40">Oliveira (2019b)</xref> mas,
                enquanto uma das soluções apontadas é fortalecer as bases teóricas que a sustentam,
                a outra se propõe a focar em sua aplicação prática. Ponto interessante é que nenhum
                dos textos encontrados no período analisado se propõe a debater as críticas do
                movimento, nem teoricamente, nem de forma prática, demonstrando, por exemplo,
                resultados empíricos dessa empreitada interdisciplinar. Ao que nos parece, portanto,
                os autores que publicaram no CSLL entre 1989 e 1995 não estavam preocupados em
                debater as pertinentes críticas ao Projeto Humanista, embora tenham produzido um bom
                número de artigos voltados ao assunto. A nosso ver, isso, de fato, gera uma aparente
                fragilidade da proposta, que nos parece mais preocupada em se reafirmar, produzindo
                mais publicações sobre a proposta, do que demonstrar empiricamente sua relevância e
                utilidade para os juristas.</p>

            <p>Os outros artigos encontrados centram suas análises em obras literárias específicas,
                tomando as premissas do Projeto Humanista como concretas e apresentando suas
                interpretações. <xref ref-type="bibr" rid="B42">Osborn Junior (1989)</xref> explora
                peças clássicas como <italic>Hamlet e Oedipus</italic>
                <italic>Rex</italic> para discutir questões de livre-arbítrio, responsabilidade e
                poder; <xref ref-type="bibr" rid="B41">Ordower (1991)</xref> e <xref ref-type="bibr"
                    rid="B51">Slusher (1991)</xref> destacam a centralidade da lei e dos processos
                judiciais na saga épica islandesa <italic>Njal's Saga</italic>, sendo que <xref
                    ref-type="bibr" rid="B41">Ordower (1991)</xref> sugere que a obra critica a
                sociedade de seu tempo, enquanto <xref ref-type="bibr" rid="B51">Slusher
                    (1991)</xref> ressalta a conexão entre tradição jurídica e mitologia nórdica.
                    <xref ref-type="bibr" rid="B49">Simon (1991)</xref> aborda <italic>O
                    Estrangeiro</italic> de Camus, explorando a tensão entre justiça poética e
                institucional.</p>

            <p>Os artigos de <xref ref-type="bibr" rid="B16">Hamaoui (1991)</xref> e <xref
                    ref-type="bibr" rid="B10">Felman (1991)</xref> trazem uma interessante
                perspectiva ao examinarem o tema do testemunho e do trauma na literatura. <xref
                    ref-type="bibr" rid="B16">Hamaoui (1991)</xref> analisa obras de Piotr Rawicz e
                Charlotte Delbo, destacando a dificuldade de transmitir eventos traumáticos por meio
                da linguagem, enquanto <xref ref-type="bibr" rid="B10">Felman (1991)</xref> discute
                os escritos de Camus, refletindo sobre a crise do testemunho no pós-guerra. Ambas
                sugerem que a literatura pode transformar a percepção da história ao testemunhar e
                reinterpretar eventos traumáticos.</p>

            <p>Os debates sobre crime e responsabilidade aparecem em <xref ref-type="bibr" rid="B19"
                    >Hellerstein (1992)</xref>, que analisa <italic>Le Pain Dur</italic> de Paul
                Claudel, conectando o simbolismo literário a conceitos de culpabilidade e
                conspiração. <xref ref-type="bibr" rid="B4">Buck (1992)</xref> discute
                    <italic>Dialogue between Pole and Lupset</italic> de Thomas Starkey, abordando
                desigualdades políticas e sociais relacionadas à propriedade fundiária na Inglaterra
                Tudor, enquanto <xref ref-type="bibr" rid="B21">Jackson (1992)</xref> investiga a
                figura do profeta na lei judaico-cristã, explorando temas de autoridade jurídica e
                moral.</p>

            <p>Algumas edições temáticas focaram em uma única obra. Em 1989, a primeira edição
                transcreveu debates de um seminário sobre <italic>Billy Budd</italic> de Herman
                Melville. O livro conta a história de Billy, um marinheiro belo e ingênuo, que
                possuía problemas de fala e, por isso tinha dificuldades de se comunicar. Em
                determinado momento da obra, isso lhe custará a vida, pois é sentenciado à morte
                pelo capitão de seu navio, graças a um mal entendido que o personagem é incapaz de
                explicar.</p>

            <p>Assim, <xref ref-type="bibr" rid="B34">Mailloux (1989)</xref> utiliza a obra para
                criticar a interpretação jurídica que oculta as verdadeiras motivações por trás das
                decisões judiciais. <xref ref-type="bibr" rid="B60">Weisberg (1989)</xref> argumenta
                que a execução de Billy é um ato de repressão deliberada por parte do Capitão Vere,
                o que foi contestado por <xref ref-type="bibr" rid="B47">Posner (1989)</xref>, que
                defende a legalidade da sentença. <xref ref-type="bibr" rid="B28">Koffler
                    (1989)</xref> e <xref ref-type="bibr" rid="B62">West (1989)</xref> exploram
                questões de gênero, argumentando que a ausência feminina reflete estruturas
                patriarcais. A edição, como um todo, revela um debate sobre a manipulação da lei e a
                moralidade da justiça militar.</p>

            <p>Em 1990, a edição centrou-se na peça <italic>Lamp at Midnight</italic> de Barrie
                Stavis, que aborda o conflito entre Galileu e a Igreja. <xref ref-type="bibr"
                    rid="B59">Weimann (1990)</xref> e <xref ref-type="bibr" rid="B25">Klaić
                    (1990)</xref> veem a peça como uma metáfora para embates entre autoridade e
                verdade, enquanto <xref ref-type="bibr" rid="B38">Nagy (1990)</xref> e <xref
                    ref-type="bibr" rid="B2">Ayling e Davidson (1990)</xref> discutem o papel da
                arte na mudança social, os últimos comparando Stavis a Brecht.</p>

            <p>A edição de 1993 sobre <italic>O Mercador de Veneza</italic> gerou debates entre
                    <xref ref-type="bibr" rid="B30">Kornstein (1993)</xref>, que discute justiça e
                equidade, e <xref ref-type="bibr" rid="B1">Alscher (1993)</xref>, que sugere uma
                leitura conciliatória do julgamento. <xref ref-type="bibr" rid="B45">Pantazakos
                    (1993)</xref> e <xref ref-type="bibr" rid="B57">Tritter (1993)</xref> discordam
                sobre o antissemitismo da peça, com <xref ref-type="bibr" rid="B57">Tritter
                    (1993)</xref>, argumentando por uma interpretação mais fiel ao contexto
                histórico, enquanto <xref ref-type="bibr" rid="B45">Pantazakos (1993)</xref> critica
                abordagens que suavizam a conversão de Shylock.</p>

            <p>Por fim, a última edição temática do período, publicada de 1994, homenageou Benjamin
                Fondane, poeta romeno-francês e crítico existencialista que viveu entre 1898 e 1944.
                Os textos apresentam como tema comum a condição de exílio de Benjamin Fondane, tanto
                no sentido literal quanto metafórico, conectada à sua identidade judaica e à
                influência do pensamento existencialista de Shestov. Fondane é retratado como um
                poeta e filósofo que explora a alienação, a busca por justiça e a luta contra as
                limitações da razão e da moralidade. O grito de exílio, seja pessoal, seja
                filosófico, permeia suas obras como uma expressão de resistência e de questionamento
                profundo sobre a condição humana.</p>

            <p><xref ref-type="bibr" rid="B6">Crohmǎlniceanu (1994)</xref> explora a relação de
                Fondane com a Romênia e sua identidade judaica, abordando sua fuga do antissemitismo
                e o sentimento de alienação tanto em sua terra natal quanto na França. Fondane
                vivenciou o exílio não só físico mas também espiritual, expressando essa dualidade
                em sua poesia. <xref ref-type="bibr" rid="B5">Carassou e Weisberg (1994)</xref>
                discutem as cartas que Fondane escreveu do campo de concentração de Drancy,
                revelando uma luta interna entre aceitação do destino e o desejo de consolar sua
                esposa, além de seu esforço final para preservar suas obras literárias. O exílio de
                Fondane toma aqui a forma de uma reflexão íntima sobre a morte iminente e a busca
                pela preservação de sua memória e legado.</p>

            <p><xref ref-type="bibr" rid="B11">Freedman (1994)</xref> conecta a peça
                    <italic>Philoctetes</italic> de Fondane à sua experiência de exílio e rejeição.
                O grito de exílio de Philoctetes simboliza a voz de Fondane como judeu e exilado,
                expressando uma contínua busca por justiça em um mundo marcado pela injustiça. <xref
                    ref-type="bibr" rid="B27">Kluback (1994)</xref> reflete sobre a poesia de
                Fondane como um diálogo contínuo entre o poeta e o mundo, destacando o papel do
                exílio e do absurdo. A poesia de Fondane emerge como uma resposta à angústia
                existencial e ao sofrimento, especialmente em seu enfrentamento da realidade da
                morte e do exílio judaico. <xref ref-type="bibr" rid="B33">Lucescu-Boutcher
                    (1994)</xref> foca na influência de Shestov na filosofia de Fondane, explorando
                a rejeição de ambos à razão como única ferramenta para entender a vida, defendendo a
                importância do absurdo e da liberdade além da moralidade convencional. <xref
                    ref-type="bibr" rid="B22">Jutrin e Eisenberg (1994)</xref> oferecem uma análise
                do retrato de si mesmo que Fondane cria em sua poesia, enfatizando a busca por
                identidade como judeu e poeta. O exílio e a alienação são temas centrais, com
                Fondane navegando entre a negação da identidade e a aceitação da responsabilidade
                profética.</p>

            <p>Diante do exposto, podemos afirmar que os artigos do Projeto Humanista, em geral,
                convergem ao destacar como a literatura pode revelar limitações e contradições do
                sistema jurídico, expondo temas, como opressão, responsabilidade e moralidade. Há um
                consenso sobre a capacidade da literatura de sensibilizar operadores do direito,
                enriquecendo o entendimento da justiça. As divergências que aparecem se devem a
                interpretações específicas de obras literárias, especialmente nas edições temáticas.
                Enquanto alguns defendem uma crítica severa às estruturas jurídicas opressivas;
                outros, como <xref ref-type="bibr" rid="B57">Tritter (1993)</xref>, sugerem leituras
                mais históricas e contextuais, evitando julgamentos contemporâneos.</p>

            <p>A leitura dos artigos sugere que o Projeto Humanista se manteve comprometido a
                destacar como a literatura pode expandir e desafiar concepções legais tradicionais,
                sem se preocupar em debater as críticas que lhes foram direcionadas. As análises
                insistem em um potencial pedagógico e crítico na interseção entre direito e
                literatura, propondo uma compreensão mais holística e sensível da justiça.</p>
        </sec>
        <sec>
            <title>4 O PROJETO HERMENÊUTICO NO CSLL (1989-1995)</title>

            <p>No que se refere ao Projeto Hermenêutico, 12 artigos foram publicados dentro desta
                categoria no recorte analisado. O ano de maior número de artigos publicados sobre o
                assunto foi 1992, conforme <xref ref-type="fig" rid="f4">Gráfico 4</xref>:</p>

            <p>
                <fig id="f4">
                    <label>Gráfico 4</label>
                    <caption>
                        <title>Quantidade de Artigos do Projeto Hermenêutico por ano</title>
                    </caption>
                    <graphic xlink:href="2447-6641-oj-23-42-0170-gf04.tif"/>
                    <attrib>Fonte: autoria própria.</attrib>
                </fig>
            </p>

            <p>Tal fato pode ser explicado com base no tema da edição 2 de 1992, que publicou os
                textos debatidos do seminário <italic>Legal Semiotics,</italic> realizado na Cardozo
                Law School, em março de 1992. A conferência reuniu estudiosos renomados da
                semiótica, como Bernard Jackson, Richard Jacobson, Roberta Kevelson e Susan
                Tiefenbrun, que exploraram a relação entre a lei e a semiótica, ou seja, a ciência
                dos signos e dos símbolos na comunicação. A semiótica, nesse contexto, é aplicada ao
                estudo do direito para analisar como as leis, os textos jurídicos e os discursos são
                construídos, interpretados e aplicados. A retórica, que também está interligada à
                semiótica, é a arte da persuasão e desempenha um papel crucial na interpretação e na
                argumentação jurídica. Por isso, esta edição contou com mais publicações voltadas a
                artigos sobre direito e interpretação.</p>

            <p>Como todos os textos que debatemos a seguir estão situados dentro do Projeto
                Hermenêutico, eles discutem diferentes aspectos de interpretação, convergindo na
                análise crítica sobre a natureza e os limites da linguagem, a intenção e as
                implicações jurídicas da comunicação.</p>

            <p><xref ref-type="bibr" rid="B32">LaRue (1989)</xref> propõe um debate sobre a
                importância da intenção do autor na interpretação de textos jurídicos e literários,
                criticando a ideia de que a interpretação deve ser centrada exclusivamente na
                intenção original do autor, sendo preciso considerar o contexto e a interação do
                leitor. <xref ref-type="bibr" rid="B48">Price (1990)</xref> critica o uso da
                Primeira Emenda nos Estados Unidos para justificar políticas que protegem os
                interesses de grandes corporações, afirmando que a interpretação da legislação deve
                considerar não apenas a liberdade, mas também a diversidade de vozes e a estrutura
                da comunicação pública, para que o verdadeiro debate democrático possa florescer.
                    <xref ref-type="bibr" rid="B35">Meyerson (1990)</xref> escreve um texto que
                aborda a relação entre tecnologia e legislação, destacando a importância de revisar
                mitos jurídicos que moldam a regulamentação das telecomunicações e a necessidade de
                políticas que possam se adaptar às mudanças tecnológicas.</p>

            <p><xref ref-type="bibr" rid="B15">Goodrich (1992)</xref> examina a função da retórica
                no direito, especificamente sua manifestação como antirrética, um estilo de discurso
                que busca denunciar e excluir o herético ou o estrangeiro do sistema legal. Para
                ele, a retórica jurídica não é neutra ou inclusiva, mas, historicamente, um
                instrumento de poder e controle, usando exemplos históricos, como o direito comum
                britânico, para demonstrar como as leis são construídas por meio de um discurso
                antirrético, no qual os "estrangeiros", os que não pertencem ao sistema, são
                retratados de maneira negativa e excluídos da comunidade jurídica.</p>

            <p><xref ref-type="bibr" rid="B61">Weisberg (1992)</xref>, em resposta a <xref
                    ref-type="bibr" rid="B15">Goodrich (1992)</xref>, argumenta que, embora a
                retórica tenha sido usada historicamente para excluir e punir, ela também tem o
                potencial de inclusão e pluralismo, como proposto por teóricos modernos, como Chaim
                Perelman e James Boyd White. <xref ref-type="bibr" rid="B61">Weisberg (1992)</xref>
                questiona se a retórica jurídica precisa sempre resultar em exclusão e controle,
                sugerindo que a retórica, quando usada de forma consciente e crítica, pode criar
                espaço para novos discursos e dar voz aos marginalizados.</p>

            <p><xref ref-type="bibr" rid="B23">Kevelson (1992)</xref> explora o conceito de
                propriedade sob a ótica da semiologia e da retórica, afirmando que ele está
                intrinsecamente ligado à linguagem e às relações sociais, sendo continuamente
                reinterpretado e transformado ao longo do tempo por meio de signos e interações
                semióticas <xref ref-type="bibr" rid="B64">Yablon (1992)</xref> oferece uma crítica
                humorística e pontual às visões de <xref ref-type="bibr" rid="B23">Kevelson
                    (1992)</xref> e <xref ref-type="bibr" rid="B15">Goodrich (1992)</xref> sobre a
                retórica no direito. Ele reconhece a proposta de <xref ref-type="bibr" rid="B23"
                    >Kevelson (1992)</xref> de que a propriedade é uma construção retórica, mas
                desafia a noção ao questionar em que momento uma ideia, como a de "propriedade",
                pode ser considerada de fato "original" ou "proprietária" de quem a propôs. Yablon
                utiliza o humor para sugerir que a linha entre a retórica e a realidade é tão tênue
                que as próprias ideias sobre propriedade podem ser desconstruídas.</p>

            <p>Em relação a <xref ref-type="bibr" rid="B15">Goodrich (1992)</xref>, <xref
                    ref-type="bibr" rid="B64">Yablon (1992)</xref> sugere que suas análises sobre a
                retórica como uma ferramenta de exclusão no direito americano podem estar
                distorcidas, já que sua formação jurídica ocorreu fora dos EUA. <xref
                    ref-type="bibr" rid="B64">Yablon (1992)</xref> brinca com a ideia de que, nas
                cortes americanas, os advogados são treinados para evitar a retórica e focar nos
                "fatos claros e inequívocos" do caso, sublinhando que a retórica pode ser vista como
                perigosa ou enganosa.</p>

            <p><xref ref-type="bibr" rid="B50">Slaughter (1992)</xref> explora como o conceito de
                antirrética pode ser aplicado para entender o papel da lei na criação da ordem e da
                autoridade, investigando como o direito, particularmente no período moderno,
                estabelece fronteiras e exclui o caos, a fragmentação e a hibridização. Ele discute
                o poder simbólico da lei e como ela regula o que é considerado parte da ordem
                social. <xref ref-type="bibr" rid="B21">Já Tiefenbrun (1992)</xref> aplica a teoria
                semiótica a uma carta de Martin Luther King, destacando como a linguagem e os signos
                usados na carta desconstruíram mitos sobre a desigualdade racial. Ela explora como
                King usou uma linguagem simbólica e contraditória para desafiar as percepções
                convencionais de justiça e injustiça, persuadindo seu público sobre a moralidade da
                desobediência civil.</p>

            <p>É importante destacar que, assim como no Projeto Humanista, os textos do Projeto
                Hermenêutico apresentam suas semelhanças e diferenças. Todos os textos discutem o
                papel da interpretação no direito, especialmente em como as leis, os discursos e as
                práticas jurídicas são moldados por fatores que vão além de uma leitura literal do
                texto legal. Eles ressaltam que a interpretação é sempre influenciada pelo contexto
                social, cultural e histórico.</p>

            <p>Além disso, autores como <xref ref-type="bibr" rid="B15">Goodrich (1992)</xref> e
                    <xref ref-type="bibr" rid="B23">Kevelson (1992)</xref>, compartilham a ideia de
                que o direito não é uma prática neutra ou objetiva. Ao contrário, ele é uma
                construção retórica que pode reforçar hierarquias de poder, excluir vozes
                marginalizadas e controlar o discurso social. Sobre a retórica, tanto <xref
                    ref-type="bibr" rid="B15">Goodrich (1992)</xref> quanto <xref ref-type="bibr"
                    rid="B23">Kevelson (1992)</xref> reconhecem que a retórica desempenha um papel
                central no direito, encarando-a como uma ferramenta que pode moldar o poder e a
                exclusão social.</p>

            <p>Autores, como <xref ref-type="bibr" rid="B32">LaRue (1989)</xref>, <xref
                    ref-type="bibr" rid="B34">Mailloux (1989)</xref>
                <xref ref-type="bibr" rid="B55">Tiefenbrun (1992)</xref>, e <xref ref-type="bibr"
                    rid="B23">Kevelson (1992)</xref>, exploram a importância da interpretação da
                linguagem na construção da lei e das normas, mostrando como os textos jurídicos e
                literários são moldados pela retórica e pelo contexto semiótico, o que significa que
                a leitura não é estática, mas continuamente reformulada. Nesse sentido, <xref
                    ref-type="bibr" rid="B15">Goodrich (1992)</xref> e <xref ref-type="bibr"
                    rid="B50">Slaughter (1992)</xref> tratam da exclusão de "estrangeiros" e
                marginalizados pelo uso da retórica jurídica, destacando como a linguagem do direito
                é utilizada para excluir certas vozes e grupos da ordem jurídica e social.</p>

            <p>Todavia, também existem divergências. Enquanto <xref ref-type="bibr" rid="B15"
                    >Goodrich (1992)</xref> vê a retórica jurídica como um instrumento de exclusão e
                controle, <xref ref-type="bibr" rid="B61">Weisberg (1992)</xref> tem uma abordagem
                mais otimista, sugerindo que a retórica também pode ser usada para promover inclusão
                e pluralismo, desde que aplicada de forma crítica. Os focos temáticos são variados,
                passando pela crítica ao intencionalismo (<xref ref-type="bibr" rid="B32">LaRue,
                    1989</xref>); regulamentação de novas tecnologias (<xref ref-type="bibr"
                    rid="B35">Meyerson, 1990</xref>); retórica (<xref ref-type="bibr" rid="B15"
                    >Goodrich 1992</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B61">Weisberg 1992</xref>); e
                semiótica (<xref ref-type="bibr" rid="B55">Tieferbaun, 1992</xref>).</p>

            <p>Assim, apesar de compartilharem a preocupação com a interpretação e a função da
                linguagem no direito, cada autor aborda o tema a partir de perspectivas únicas, seja
                focando na retórica como um mecanismo de exclusão, na adaptação da legislação às
                novas tecnologias ou na análise de figuras públicas que utilizaram a retórica para
                desafiar o <italic>status quo</italic>. Essa multiplicidade de perspectivas que
                ocorre também dentro do Projeto Humanista mais uma vez reforça o caráter difuso e
                aberto do próprio movimento de direito e literatura.</p>
        </sec>
        <sec>
            <title>5 O PROJETO NARRATIVISTA NO CSLL (1989-1995)</title>

            <p>Em relação ao Projeto Narrativista, encontramos 7 artigos publicados no CSLL. Em
                1990, tivemos o maior número de artigos publicados, sendo que a categoria não
                aparece em 1992, 1993 e 1995, conforme <xref ref-type="fig" rid="f5">Gráfico
                    5</xref>:</p>

            <p>
                <fig id="f5">
                    <label>Gráfico 5</label>
                    <caption>
                        <title>Quantidade de Artigos do Projeto Narrativista por ano</title>
                    </caption>
                    <graphic xlink:href="2447-6641-oj-23-42-0170-gf05.tif"/>
                    <attrib>Fonte: autoria própria.</attrib>
                </fig>
            </p>

            <p>Ocorre que a edição 1 de 1990 teve como tema <italic>O Escritor e o Estado</italic>,
                trazendo, portanto, diversas contribuições que utilizam testemunhos e depoimentos
                para demonstrar essa relação. Lembremo-nos que o Projeto Narrativista foca em
                utilizar a experiência de pessoas reais, especialmente depoimentos, testemunhos e
                histórias vividas, para trazer à tona as vozes marginalizadas e as experiências
                individuais que o sistema jurídico, político ou social tradicionalmente silencia, o
                que aparece de forma latente no tema da edição.</p>

            <p>Todos os artigos identificados buscam, de alguma forma, humanizar o direito colocando
                em primeiro plano as narrativas das vítimas e dos marginalizados, revelando como
                suas histórias pessoais podem desafiar e transformar a compreensão convencional o
                direito, da moralidade e da opressão. Um tema central que os atravessa é a
                resistência à opressão e a exploração de como essa resistência surge da experiência
                vivida pelas pessoas. <xref ref-type="bibr" rid="B25">Klíma (1990)</xref> e <xref
                    ref-type="bibr" rid="B43">Palous (1990)</xref> exemplificam como as narrativas
                de resistência contra regimes opressores, como o regime autoritário na
                Tchecoslováquia, pautados em uma visão de como as experiências pessoais de opressão
                podem ser transformadas em atos de resistência e sobrevivência. <xref
                    ref-type="bibr" rid="B25">Klíma (1990)</xref>, por exemplo, argumenta que a
                opressão permitiu aos escritores uma liberdade criativa paradoxal, enquanto <xref
                    ref-type="bibr" rid="B43">Palous (1990)</xref> descreve a criação de uma "polis
                paralela", uma esfera pública alternativa como resposta à repressão estatal.</p>

            <p>O foco na violência, no testemunho e na preservação da memória coletiva também
                perpassa as publicações. <xref ref-type="bibr" rid="B7">De Grazia e Paggi
                    (1991)</xref> descrevem o massacre de civis por forças nazistas a partir da
                perspectiva dos sobreviventes, especialmente das mulheres que assumiram a tarefa de
                enterrar os mortos e manter viva a memória do evento. O artigo demonstra como a
                narrativa das vítimas e das testemunhas de um evento traumático pode moldar a
                compreensão coletiva do que aconteceu, além de fornecer uma nova perspectiva sobre
                justiça e memória.</p>

            <p>De maneira similar, <xref ref-type="bibr" rid="B29">Konrád (1990)</xref> enfatiza a
                importância de ouvir as vítimas da violência e da opressão para revelar a verdade
                sobre as injustiças cometidas. Ele defende a ideia de que o assassinato, seja qual
                for a justificativa, é moralmente inaceitável, colocando a narrativa da vítima no
                centro da reflexão sobre a moralidade e a justiça.</p>

            <p>Já <xref ref-type="bibr" rid="B53">Staves (1989)</xref> acrescenta uma dimensão de
                gênero ao debate, explorando como as mulheres foram tradicionalmente excluídas das
                discussões sobre direitos durante a Revolução Gloriosa na Inglaterra, com destaque
                para a importância de resgatar essas narrativas para corrigir essa exclusão
                histórica.</p>

            <p><xref ref-type="bibr" rid="B58">Vaculik (1990)</xref> reflete sobre a importância da
                palavra e da ação no contexto da resistência pacífica, inspirado por figuras como
                Gandhi. Ele sugere que a escrita e o discurso são importantes ferramentas de
                resistência, mas alerta para a necessidade de que essas palavras sejam acompanhadas
                por ações concretas.</p>

            <p>As principais semelhanças entre eles residem no fato de vislumbrarem a narrativa de
                pessoas reais como uma ferramenta essencial para questionar as estruturas de poder,
                revelar as injustiças cometidas contra indivíduos e grupos marginalizados, e criar
                espaço para um novo entendimento da justiça e da moralidade. Os depoimentos, as
                memórias e as experiências vividas, especialmente das vítimas e dos oprimidos,
                desafiam a ordem estabelecida e oferecem uma nova perspectiva sobre como o direito e
                a sociedade podem evoluir para serem mais inclusivos e justos. Ao destacar essas
                narrativas, o Projeto Narrativista expande o campo de análise jurídica e política
                para além das abstrações e das normas legais, oferecendo uma visão mais humana e
                empática da justiça.</p>

            <p>Porém, existem algumas diferenças pontuais. <xref ref-type="bibr" rid="B25">Klíma
                    (1990)</xref>, por exemplo, vê a opressão como uma oportunidade para liberar a
                criatividade de escritores, enquanto <xref ref-type="bibr" rid="B43">Palous
                    (1990)</xref> foca na criação de uma estrutura alternativa de resistência, como
                a "polis paralela". Já <xref ref-type="bibr" rid="B58">Vaculik (1990)</xref> olha
                para a resistência por meio da lente do pacifismo, inspirado por Gandhi. Além disso,
                enquanto <xref ref-type="bibr" rid="B29">Konrád (1990)</xref> e <xref
                    ref-type="bibr" rid="B43">Palous (1990)</xref> estão preocupados com questões
                éticas profundas (como o assassinato e a moralidade da resistência), <xref
                    ref-type="bibr" rid="B25">Klíma (1990)</xref> e <xref ref-type="bibr" rid="B58"
                    >Vaculik (1990)</xref> têm uma abordagem mais prática, discutindo a resistência
                criativa ou pacífica dentro de contextos opressivos. Já <xref ref-type="bibr"
                    rid="B53">Staves (1989)</xref> está preocupada com como os direitos são
                retoricamente construídos e aplicados, especialmente em relação às mulheres na
                Revolução Gloriosa, um contraste com os outros autores que focam mais na resistência
                política e moral contemporânea.</p>

            <p>Por fim, <xref ref-type="bibr" rid="B7">De Grazia e Paggi (1991)</xref> se distinguem
                por seu foco na brutalidade explícita da violência e no papel das mulheres como
                testemunhas e preservadoras da memória coletiva. Enquanto outros textos abordam a
                resistência a regimes opressores de maneira mais intelectual ou simbólica, este
                artigo lida com as consequências imediatas da violência, oferecendo uma perspectiva
                mais íntima e local da tragédia.</p>
        </sec>
        <sec>
            <title>6 O PROJETO ÉTICO-LEGAL NO CSLL (1989-1995)</title>

            <p>A categoria Projeto Ético-Legal foi aplicada por nós a 11 artigos publicados no CSLL,
                tenso seu ápice em 1990, conforme <xref ref-type="fig" rid="f6">Gráfico
                6</xref>:</p>

            <p>
                <fig id="f6">
                    <label>Gráfico 6</label>
                    <caption>
                        <title>Quantidade de Artigos do Projeto Ético-legal por ano</title>
                    </caption>
                    <graphic xlink:href="2447-6641-oj-23-42-0170-gf06.tif"/>
                    <attrib>Fonte: autoria própria.</attrib>
                </fig>
            </p>

            <p>Como já mencionado, a edição 1 de 1990 teve como tema <italic>O Escritor e o
                    Estado</italic>, sendo que um dos debates centrais da edição recaiu sobre a
                censura e a liberdade de expressão, além do papel dos artistas e intelectuais em
                nossa sociedade. Como os artigos do Projeto Ético-Legal revelam uma profunda
                reflexão sobre o papel da ética, debruçando-se sobre o impacto político das ações
                dos artistas e de suas obras de arte, faz sentido um grande número de publicações
                desta categoria na edição mencionada.</p>

            <p>Dentro dessa perspectiva, <xref ref-type="bibr" rid="B31">Kornstein (1989)</xref>
                trata sobre a ética do jornalista ao criticar duramente a análise de Janet Malcolm,
                autor do livro <italic>The Journalist and the Murderer</italic> sobre o caso
                    <italic>Fatal Vision</italic>, um dos julgamentos mais controversos dos Estados
                Unidos, envolvendo o assassinato da esposa e dos filhos do médico Jeffrey MacDonald.
                Como único sobrevivente, MacDonald logo foi apontado como autor dos crimes embora
                sempre tivesse negado qualquer envolvimento. Nesse panorama, Malcolm, em sua obra
                    <italic>The Journalist and the Murderer</italic>, questiona a ética dos
                jornalistas que cobriram o caso, argumentando que a relação entre escritor e fonte é
                essencialmente imoral e marcada por traição, especialmente no caso de Joe McGinniss,
                o jornalista que escreveu sobre MacDonald. <xref ref-type="bibr" rid="B31">Kornstein
                    (1989)</xref> discorda da visão de Malcolm, afirmando que sua perspectiva sobre
                a relação entre jornalista e sujeito é distorcida e inadequada. Além disso, ele
                critica a abordagem sensacionalista de Malcolm, afirmando que ela distorceu as
                realidades do caso <italic>Fatal Vision</italic> ao focar mais nas questões éticas
                do jornalismo do que nos próprios detalhes do julgamento e no papel das evidências.
                Para <xref ref-type="bibr" rid="B31">Kornstein (1989)</xref>, essa interpretação
                falha prejudica a compreensão do público sobre o papel da mídia em casos de grande
                repercussão, como o de MacDonald.</p>

            <p><xref ref-type="bibr" rid="B13">Fuller (1989)</xref> responde ao artigo de <xref
                    ref-type="bibr" rid="B31">Kornstein (1989)</xref>, discutindo as questões éticas
                do jornalismo. Ele aborda o papel do escritor ao tratar da verdade e da confiança
                entre repórter e sujeito, também criticando a obra de Janet Malcolm e sua visão da
                relação entre escritor e personagem como algo imoral e traiçoeiro.</p>

            <p><xref ref-type="bibr" rid="B24">Kis (1990)</xref> reflete sobre o papel e a
                responsabilidade dos intelectuais durante a invasão da Tchecoslováquia em 1968 pelas
                tropas do Pacto de Varsóvia. Ele examina a falta de ação dos intelectuais húngaros e
                a complacência durante eventos importantes que moldaram a história da região. <xref
                    ref-type="bibr" rid="B18">Havel (1990)</xref> oferece uma reflexão sobre o
                estado da cultura sob regimes totalitários, destacando o conceito de "cultura
                paralela" e a forma como os artistas e intelectuais enfrentam repressões políticas,
                mantendo-se resilientes por meios não oficiais.</p>

            <p><xref ref-type="bibr" rid="B36">Michnik (1990)</xref> discute o período de transição
                após a queda do socialismo na Europa Oriental, focando nas tensões entre política e
                ética. Ele questiona o papel dos intelectuais e políticos nesse novo cenário,
                abordando a luta pelo poder e a tentação do revanchismo. <xref ref-type="bibr"
                    rid="B54">Taylor, Voll e Reisman (1990)</xref> exploram a liberdade de expressão
                e as tensões entre direitos individuais e valores culturais, usando o exemplo de
                Salman Rushdie e a polêmica em torno de seu livro <italic>Os Versos
                    Satânicos</italic>. Ocorre que o livro foi considerado blasfemo pelos muçulmanos
                por sua representação de elementos do Islã, do profeta Maomé e de outros aspectos
                religiosos. A situação foi tão grave que em 1989 o líder supremo do Irã na época, o
                aiatolá Ruhollah Khomeini, emitiu um decreto religioso islâmico condenando Rushdie à
                morte, acusando-o de blasfêmia. Assim, <xref ref-type="bibr" rid="B54">Taylos, Voll
                    e Reisman (1990)</xref> discutem a responsabilidade de autores ao cruzar
                fronteiras culturais e religiosas, além das implicações éticas da liberdade de
                expressão.</p>

            <p><xref ref-type="bibr" rid="B7">De Grazia (1991)</xref> explora a censura na
                literatura, focando no caso de Samuel Roth, um editor condenado por publicar
                literatura considerada obscena. O autor analisa a luta contra a censura e os debates
                sobre liberdade de imprensa, questionando os limites entre obscenidade e arte. <xref
                    ref-type="bibr" rid="B17">Hartman (1994)</xref> reflete sobre o impacto do
                Holocausto na arte e na estética. Ele discute se é possível manter um
                    <italic>ethos</italic> estético após um evento tão devastador quanto Auschwitz,
                explorando a tensão entre a arte e a moralidade. <xref ref-type="bibr" rid="B20"
                    >Hutchings (1994)</xref> analisa como a censura de textos violentos e
                pornográficos impacta a percepção pública da violência e obscenidade. O autor
                argumenta que a própria censura pode ser uma forma de violência, utilizando
                conceitos de Foucault e Baudrillard para questionar os efeitos do controle sobre o
                discurso.</p>

            <p><xref ref-type="bibr" rid="B12">Frow (1995)</xref> examina a fama de Elvis Presley
                como uma mercadoria cultural, discutindo como sua imagem se tornou um produto
                comercial. O autor explora o processo de mercantilização e alienação da identidade
                pessoal por meio da fama, analisando as tensões entre o valor cultural e comercial.
                Já <xref ref-type="bibr" rid="B14">Godfrey (1995)</xref> escreve sobre moda na
                literatura francesa do século XIX, propondo análise de como o vestuário se torna um
                símbolo de status social e exclusão. Ele investiga o papel da moda na definição da
                identidade e nas distinções sociais.</p>

            <p>Esses artigos compartilham um eixo central de reflexão sobre ética e responsabilidade
                em campos diversos, tendo como principal semelhança a exploração do papel dos
                intelectuais e escritores em contextos de poder e opressão. Tanto <xref
                    ref-type="bibr" rid="B31">Kornstein (1989)</xref> quanto <xref ref-type="bibr"
                    rid="B13">Fuller (1989)</xref> discutem a responsabilidade ética dos jornalistas
                na representação da verdade, criticando o uso manipulador da confiança. Já <xref
                    ref-type="bibr" rid="B18">Havel (1990)</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B24"
                    >Kis (1990)</xref> e <xref ref-type="bibr" rid="B36">Michnik (1990)</xref>
                ampliam a discussão para a responsabilidade dos intelectuais em contextos políticos,
                seja durante invasões militares, seja no pós-comunismo. <xref ref-type="bibr"
                    rid="B54">Taylor, Voll e Reisman (1990)</xref> também discutem a
                responsabilidade dos autores em contextos culturais sensíveis, abordando o papel de
                Salman Rushdie e as consequências de sua obra no mundo muçulmano. Essa interseção
                entre ética e poder é central em todos os textos.</p>

            <p>A liberdade de expressão e a censura são debates que também emergem, de forma mais
                explícita em <xref ref-type="bibr" rid="B7">De Grazia (1991)</xref> e <xref
                    ref-type="bibr" rid="B20">Hutchings (1994)</xref>, ao se concentrarem na relação
                entre censura e liberdade de expressão, questionando o papel do Estado em regular a
                produção cultural e literária, de forma tangencial nos debates sobre os limites da
                liberdade de imprensa e expressão, presentes também nos textos de <xref
                    ref-type="bibr" rid="B31">Kornstein (1989)</xref> e <xref ref-type="bibr"
                    rid="B13">Fuller (1989)</xref>.</p>

            <p>Outro ponto em comum é a ênfase no papel da arte e dos intelectuais durante crises.
                    <xref ref-type="bibr" rid="B17">Hartman (1994)</xref>, assim como <xref
                    ref-type="bibr" rid="B18">Havel (1990)</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B36"
                    >Michnik (1990)</xref> e <xref ref-type="bibr" rid="B24">Kis (1990)</xref>,
                questiona o papel da arte em tempos de crise. De <xref ref-type="bibr" rid="B14"
                    >Godfrey (1995)</xref>, ao analisar como a moda funciona como uma forma de
                inclusão e exclusão social, também reflete como a cultura pode reforçar
                desigualdades. Esse tema também ressoa em <xref ref-type="bibr" rid="B12">Frow
                    (1995)</xref>, que argumenta que a fama é explorada como uma mercadoria que
                exclui o indivíduo de sua própria essência.</p>

            <p>Apesar dessas semelhanças, os artigos se distinguem principalmente em suas abordagens
                específicas: alguns têm por enfoque o jornalismo; outros, a censura e a liberdade de
                expressão. Mas essas diferenças não recaem sobre o cerne do Projeto Ético-Legal,
                sendo apenas análises de casos diferentes, examinando questões éticas a partir de
                perspectivas distintas.</p>
        </sec>
        <sec>
            <title>7 CONSIDERAÇÕES FINAIS</title>

            <p>A presente pesquisa buscou investigar as principais discussões realizadas nos artigos
                publicados no periódico <italic>Cardozo Studies in Law and Literature</italic>
                (CSLL) entre 1989 e 1995, com o intuito de classificar esses textos nas categorias
                estabelecidas por <xref ref-type="bibr" rid="B46">Peters (2005)</xref>, além da
                categoria adicional do Projeto Ético-Legal, proposta neste estudo. A metodologia
                envolveu o acesso direto a todos os artigos publicados durante o período delimitado,
                por meio da base Taylor &amp; Francis. O objetivo foi mapear e comparar
                qualitativamente as contribuições desses textos para o movimento interdisciplinar de
                Direito e Literatura nos Estados Unidos. Com essa análise, foi possível identificar
                como os artigos de cada projeto contribuíram para a ampliação do debate sobre as
                interseções entre direito, literatura e ética.</p>

            <p>Em relação aos resultados obtidos, no Projeto Humanista, as discussões giraram em
                torno da forma como a literatura expõe as limitações do sistema jurídico e promove
                uma visão mais sensível da justiça, destacando o potencial pedagógico e crítico da
                interseção entre direito e literatura. No Projeto Hermenêutico, os textos analisaram
                a importância da interpretação no campo jurídico, com uma ênfase especial na
                retórica e na semiótica. Autores, como <xref ref-type="bibr" rid="B15">Goodrich
                    (1992)</xref> e <xref ref-type="bibr" rid="B23">Kevelson (1992)</xref>,
                abordaram o papel da retórica como instrumento de poder e exclusão, enquanto <xref
                    ref-type="bibr" rid="B61">Weisberg (1992)</xref> ofereceu uma visão mais
                otimista sobre a possibilidade de usar a retórica para promover a inclusão social. O
                Projeto Narrativista, por sua vez, destacou a importância das narrativas pessoais e
                reais como forma de expor as injustiças sociais e propor novas visões de justiça.
                Finalmente, no Projeto Ético-Legal, o foco foi a responsabilidade dos intelectuais e
                escritores em contextos de poder e censura, com ênfase na ética, na liberdade de
                expressão e no papel da arte em tempos de crise.</p>

            <p>As principais contribuições deste estudo residem na sistematização e classificação
                das discussões presentes no periódico <italic>Cardozo Studies in Law and
                    Literature</italic> ao longo de seus sete primeiros anos. Esta pesquisa permitiu
                uma visão mais detalhada sobre como o movimento de Direito e Literatura se
                consolidou nos Estados Unidos, por meio de uma rica interação entre abordagens
                literárias e jurídicas. Além disso, ao propor uma nova categoria, o Projeto
                Ético-Legal, o estudo expande as possibilidades de análise, permitindo que se
                explorem temas contemporâneos de ética, censura e responsabilidade social dos
                intelectuais e artistas. O trabalho contribui, ainda, para o campo de estudos ao
                evidenciar a diversidade de perspectivas sobre o papel da literatura e da
                interpretação na prática jurídica.</p>

            <p>Contudo, algumas limitações foram encontradas ao longo da pesquisa. Em primeiro
                lugar, a análise foi restrita aos artigos publicados entre 1989 e 1995, o que limita
                a abrangência dos resultados obtidos, uma vez que o periódico continuou a se
                expandir e a incorporar novas discussões após esse período. Além disso, a
                classificação dos artigos nas categorias propostas por <xref ref-type="bibr"
                    rid="B46">Peters (2005)</xref> e na nova categoria criada depende, em certa
                medida, de interpretações subjetivas, o que pode resultar em alguma divergência
                quanto ao enquadramento dos textos.</p>

            <p>Por fim, a presente pesquisa abre caminho para novas investigações no campo do
                Direito e Literatura. Sugere-se que trabalhos futuros possam expandir a análise para
                edições subsequentes do periódico <italic>Cardozo Studies in Law and
                    Literature</italic>, de modo a investigar como os debates se transformaram ao
                longo das décadas posteriores. Também seria relevante desenvolver estudos empíricos
                que avaliem o impacto dessas discussões teóricas na formação e na prática dos
                juristas, de modo a verificar como a interdisciplinaridade entre direito e
                literatura pode contribuir, de fato, para a prática do direito.</p>
        </sec>
    </body>
    <back>
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            <fn id="fn1" fn-type="other">
                <label>1</label>
                <p>Traduzido do original em inglês: The Writer and the State.</p>
            </fn>
            <fn id="fn2" fn-type="other">
                <label>2</label>
                <p>Traduzido do original em inglês: Lamp at Midnight: A play about Galileo.</p>
            </fn>
            <fn id="fn3" fn-type="other">
                <label>3</label>
                <p>Traduzido do original em inglês: Symposium on Semiotics and the Law.</p>
            </fn>
            <fn id="fn4" fn-type="other">
                <label>4</label>
                <p>Traduzido do original em inglês: A Symposium Issue on The Merchant of Venice.</p>
            </fn>
            <fn id="fn5" fn-type="other">
                <label>5</label>
                <p>Traduzido do original em inglês: Festschrift for W. Wolfgang Holdheim.</p>
            </fn>
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