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<!DOCTYPE article PUBLIC "-//NLM//DTD JATS (Z39.96) Journal Publishing DTD v1.1 20151215//EN" "https://jats.nlm.nih.gov/publishing/1.1/JATS-journalpublishing1.dtd">
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                <journal-title>Revista Opinião Jurídica</journal-title>
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            <issn pub-type="ppub">1806-0420</issn>
            <issn pub-type="epub">2447-6641</issn>
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                <publisher-name>Centro Universitário Christus</publisher-name>
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            <article-id pub-id-type="doi">10.12662/2447-6641oj.v21i36.p117-147.2023</article-id>
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                    <subject>Artigos</subject>
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                <article-title>ATUAÇÃO DA DEFENSORIA PÚBLICA NA ARBITRAGEM AMBIENTAL</article-title>
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                    <trans-title>PUBLIC DEFENDER'S ROLE IN ENVIRONMENTAL ARBITRATION</trans-title>
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                    <trans-title>ACTUACIÓN DEL DEFENSOR PÚBLICO EN EL ARBITRAJE
                        AMBIENTAL</trans-title>
                </trans-title-group>
            </title-group>
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                <contrib contrib-type="author">
                    <contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0003-4274-0309</contrib-id>
                    <name>
                        <surname>Netto</surname>
                        <given-names>Carlos Eduardo Montes</given-names>
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                <contrib contrib-type="author">
                    <contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0002-1021-0891</contrib-id>
                    <name>
                        <surname>Lehfeld</surname>
                        <given-names>Lucas de Souza</given-names>
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                    <xref ref-type="aff" rid="aff2">**</xref>
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                <contrib contrib-type="author">
                    <contrib-id contrib-id-type="orcid">0000-0003-1067-4335</contrib-id>
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                        <surname>Ferreira</surname>
                        <given-names>Olavo Augusto Vianna Alves</given-names>
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            </contrib-group>
            <aff id="aff1">
                <label>*</label>
                <institution content-type="orgname">Unaerp</institution>
                <addr-line>
                    <city>Jaboticabal</city>
                    <state>SP</state>
                </addr-line>
                <country country="BR">BR</country>
                <email>carlosmontes3@hotmail.com</email>
                <institution content-type="original">Doutor e mestre em Direito. Professor de cursos
                    de graduação e de pós-graduação da UNIP e da UNAERP. Coordenador da
                    Especialização em Direito Civil e Processo Civil da Unaerp. Juiz de Direito.
                    Membro do grupo de pesquisa em Direito Constitucional e do Conselho Consultivo
                    da Brazilian Research and Studies Journal, da University of Würzburg, Campus
                    Hubland Nord, Würzburg, da Alemanha, vinculados ao Brazilian Research and
                    Studies Center (BraS). Jaboticabal - SP – BR. E-mail:
                    &lt;carlosmontes3@hotmail.com&gt;.
                    https://orcid.org/0000-0003-4274-0309</institution>
            </aff>
            <aff id="aff2">
                <label>**</label>
                <institution content-type="orgname">Universidade de Ribeirão Preto –
                    UNAERP</institution>
                <institution content-type="orgdiv1">Programa de Pós-Graduação em Mestrado e
                    Doutorado em Direitos Coletivos e da Cidadania</institution>
                <addr-line>
                    <city>Ribeirão Preto</city>
                    <state>SP</state>
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                <country country="BR">BR</country>
                <email>lehfeldrp@gmail.com</email>
                <institution content-type="original">Professor Titular do Programa de Pós-Graduação
                    em Mestrado e Doutorado em Direitos Coletivos e da Cidadania da Universidade de
                    Ribeirão Preto – UNAERP (Brasil). Mestre em Direito pela Universidade Estadual
                    Paulista Júlio de Mesquita Filho. Doutor em Direito pela Pontifícia Universidade
                    Católica de São Paulo. Pós-Doutor em Direito pela Universidade de Coimbra (POR).
                    Avaliador de cursos de direito pelo Ministério da Educação (INEP) e Conselho
                    Estadual de Educação do Governo do Estado de São Paulo (CEE). Ex-membro da
                    Comissão Técnica Nacional de Biossegurança do MCT. Membro do Conselho Municipal
                    de Meio Ambiente de Ribeirão Preto. Presidente da Comissão de Meio Ambiente da
                    12 Subseção da OAB - Ribeirão Preto. Parecerista da Revista dos Tribunais (RT).
                    Advogado na área de meio ambiente e administrativo. Ribeirão Preto - SP - BR.
                    E-mail: &lt;lehfeldrp@gmail.com&gt;.
                    https://orcid.org/0000-0002-1021-0891</institution>
            </aff>
            <aff id="aff3">
                <label>***</label>
                <institution content-type="orgname">Universidade de Ribeirão Preto –
                    UNAERP</institution>
                <institution content-type="orgdiv1">Programa de Pós-Graduação em Mestrado e
                    Doutorado</institution>
                <addr-line>
                    <city>Ribeirão Preto</city>
                    <state>SP</state>
                </addr-line>
                <country country="BR">BR</country>
                <email>olavoaferreira@hotmail.com</email>
                <institution content-type="original">Professor Titular do Programa de Pós-Graduação
                    em Mestrado e Doutorado da Universidade de Ribeirão Preto – UNAERP (Brasil).
                    Doutor e mestre em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo –
                    PUC/SP. Procurador do Estado de São Paulo. Membro da Comissão Especial de
                    Arbitragem do Conselho Federal da OAB. Membro de listas referenciais de
                    árbitros. Ribeirão Preto - SP - BR. E-mail: &lt;olavoaferreira@hotmail.com&gt;.
                    https://orcid.org/0000-0003-1067-4335</institution>
            </aff>
            <author-notes>
                <fn fn-type="edited-by">
                    <p>Editora responsável: Profa. Dra. Fayga Bedê</p>
                    <p><ext-link ext-link-type="uri"
                            xlink:href="https://orcid.org/0000-0001-6444-2631"
                            >https://orcid.org/0000-0001-6444-2631</ext-link></p>
                </fn>
            </author-notes>
            <pub-date publication-format="electronic" date-type="pub">
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                <season>Jan-Apr</season>
                <year>2023</year>
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            <volume>21</volume>
            <issue>36</issue>
            <fpage>117</fpage>
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                <date date-type="accepted">
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                    <month>08</month>
                    <year>2022</year>
                </date>
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                <license license-type="open-access"
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                    <license-p>Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a
                        licença Creative Commons Attribution Non-Commercial que permite uso,
                        distribuição e reprodução não-comercial irrestrito em qualquer meio, desde
                        que o trabalho original seja devidamente citado.</license-p>
                </license>
            </permissions>
            <abstract>
                <title>RESUMO</title>
                <sec>
                    <title>Contextualização:</title>
                    <p>De acordo com a doutrina e o próprio Conselho Nacional de Justiça, o
                        Judiciário não constitui a única via de acesso à Justiça, existindo hoje um
                        sistema denominado multiportas. Nessa perspectiva, nos últimos anos, um dos
                        institutos que mais tem ganhado destaque é a arbitragem, envolvendo as mais
                        diversas áreas do direito, justificando a análise do seu cabimento em
                        disputas relativas também ao meio ambiente, não obstante a consideração, em
                        primeira análise, tratar-se de um direito fundamental difuso e indisponível.
                        Entretanto, há reflexos econômicos e materiais de danos ambientais, o que
                        pode ser tratado pela arbitragem.</p>
                </sec>
                <sec>
                    <title>Objetivo:</title>
                    <p>O objetivo do presente artigo é verificar se é possível em caso positivo, os
                        eventuais contornos da atuação da Defensoria Pública na arbitragem ambiental
                        em favor dos hipossuficientes.</p>
                </sec>
                <sec>
                    <title>Metodologia:</title>
                    <p>O método adotado para a elaboração do presente artigo foi o
                        hipotéticodedutivo, sendo a pesquisa, quanto ao procedimento, bibliográfica
                        e jurisprudencial.</p>
                </sec>
                <sec>
                    <title>Resultados:</title>
                    <p>A pesquisa conclui que a Defensoria Pública deve atuar em todas as fases do
                        procedimento, inclusive antes da sua eleição, proporcionando uma equiparação
                        de “armas” nas searas jurídica e econômica, em decorrência da garantia
                        constitucional da assistência jurídica integral e gratuita aos mais
                        pobres.</p>
                </sec>
            </abstract>
            <trans-abstract xml:lang="en">
                <title>ABSTRACT</title>
                <sec>
                    <title>Background:</title>
                    <p>According to the doctrine and the National Council of Justice, the Judiciary
                        is not the only way to access Justice, and today there is a system called
                        multiport. In this perspective, in recent years, one of the institutes that
                        has gained the most prominence is arbitration, involving the most diverse
                        areas of law, justifying the analysis of its appropriateness in disputes
                        related also to the environment, despite the consideration, in the first
                        analysis, it is a diffuse and unavailable fundamental right. However, there
                        are economic and material consequences of environmental damage, which can be
                        dealt with by arbitration.</p>
                </sec>
                <sec>
                    <title>Objective:</title>
                    <p>The objective of this article is to verify if it is possible and, if so, the
                        possible contours of the Public Defender's Office in environmental
                        arbitration in favor of the disadvantaged.</p>
                </sec>
                <sec>
                    <title>Method:</title>
                    <p>The method adopted for the elaboration of this article was the
                        hypothetical-deductive one, being the research, regarding the procedure,
                        bibliographic and jurisprudential.</p>
                </sec>
                <sec>
                    <title>Results:</title>
                    <p>The research concludes that the Public Defender's Office must act at all
                        stages of the procedure, including before its election, providing an
                        equalization of "weapons" in the legal and economic fields, as a result of
                        the constitutional guarantee of full and free legal assistance to the
                        poorest.</p>
                </sec>
            </trans-abstract>
            <trans-abstract xml:lang="es">
                <title>RESUMEN</title>
                <sec>
                    <title>Contextualización:</title>
                    <p>Según la doctrina y el Consejo Nacional de Justicia (CNJ), el Poder Judicial
                        no es la única forma de acceder a la justicia, hoy existe un sistema
                        denominado multipuerta. En esta perspectiva, en los últimos años, uno de los
                        institutos que ha cobrado mayor protagonismo es el arbitraje, involucrando
                        las más diversas áreas del derecho, justificando el análisis de su
                        relevancia en las controversias relacionadas con el medio ambiente, a pesar
                        de considerar, en un primer análisis, es un derecho fundamental difuso e
                        indisponible. Sin embargo, existen consecuencias económicas y materiales del
                        daño ambiental, que pueden ser tratadas mediante arbitraje.</p>
                </sec>
                <sec>
                    <title>Objetivo:</title>
                    <p>El objeto de este artículo es verificar si es posible y, en caso afirmativo,
                        los posibles contornos de la Defensoría Pública en el arbitraje ambiental a
                        favor de los desfavorecidos.</p>
                </sec>
                <sec>
                    <title>Método:</title>
                    <p>El método adoptado para la elaboración de este artículo fue el
                        hipotéticodeductivo, siendo la investigación, en cuanto al procedimiento,
                        bibliográfica y jurisprudencial.</p>
                </sec>
                <sec>
                    <title>Resultados:</title>
                    <p>La investigación concluye que la Defensoría Pública debe actuar en todas las
                        etapas del procedimiento, incluso antes de su elección, proporcionando una
                        equiparación de "armas" en los campos jurídico y económico, como resultado
                        de la garantía constitucional de asistencia jurídica plena y gratuita a los
                        más pobres.</p>
                </sec>
            </trans-abstract>
            <kwd-group xml:lang="pt">
                <title>Palavras-chave:</title>
                <kwd>arbitragem</kwd>
                <kwd>meio ambiente</kwd>
                <kwd>hipossuficiente</kwd>
                <kwd>acesso à justiça</kwd>
                <kwd>Defensoria Pública</kwd>
            </kwd-group>
            <kwd-group xml:lang="en">
                <title>Keywords:</title>
                <kwd>arbitration</kwd>
                <kwd>environment</kwd>
                <kwd>hyposufficient</kwd>
                <kwd>access to justice</kwd>
                <kwd>Public defense</kwd>
            </kwd-group>
            <kwd-group xml:lang="es">
                <title>Palabras clave:</title>
                <kwd>arbitraje</kwd>
                <kwd>medio ambiente</kwd>
                <kwd>insuficiente</kwd>
                <kwd>acceso a la justicia</kwd>
                <kwd>Defensor público</kwd>
            </kwd-group>
        </article-meta>
    </front>
    <body>
        <sec sec-type="intro">
            <title>1 INTRODUÇÃO</title>
            <p>Conforme reconhecido pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), por meio da Resolução
                nº 125, de 29 de novembro de 2010, o direito de acesso à Justiça, previsto no artigo
                5º, XXXV, da Constituição da República Federativa do <xref ref-type="bibr" rid="B14"
                    >Brasil de 1988</xref> (CRFB/88), além da sua vertente formal, perante os
                tribunais, compreende o acesso à ordem jurídica justa e a soluções efetivas,
                abrangendo não apenas os serviços judiciais, bem como outros mecanismos de solução
                de conflitos, configurando a existência de uma justiça denominada “multiportas”.</p>
            <p>Uma dessas portas de acesso à justiça é a arbitragem, na qual a tarefa de resolver o
                conflito é atribuída a um terceiro, denominado árbitro, apresentando a sua decisão
                de natureza jurisdicional, produzindo a sentença arbitral coisa julgada material,
                com a formação de um título executivo judicial, na forma do artigo 515, inciso VII,
                do Código de Processo Civil de 2015 (<xref ref-type="bibr" rid="B18">BRASIL,
                    2015b</xref>).</p>
            <p>Nos últimos anos, tem-se verificado um grande crescimento na utilização da arbitragem
                para a resolução de disputas, envolvendo direitos patrimoniais disponíveis nas mais
                diversas áreas jurídicas, surgindo uma consistente doutrina que defende a existência
                de uma “arbitragem temática”, por exemplo, quanto a conflitos na área consumerista,
                de direitos coletivos, de família, de sucessões, trabalhistas, a partir do
                envolvimento da Administração Pública e, até mesmo, daqueles referentes ao meio
                ambiente (<xref ref-type="bibr" rid="B50">FERREIRA; ROCHA; FERREIRA, 2019</xref>),
                contando inclusive com o respaldo da jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça
                (STJ) e dos Tribunais estaduais.</p>
            <p>Nessa perspectiva, a presente pesquisa se justifica pela necessidade de analisar se é
                viável e vantajosa a utilização da arbitragem em conflitos, envolvendo o meio
                ambiente e, em caso positivo, se cabe à Defensoria Pública atuar no exercício de
                suas atribuições quando da representação dos interesses das pessoas hipossuficientes
                do ponto de vista financeiro que desejarem se valer dessa via para resolverem as
                disputas patrimoniais e econômicas reflexas ao dano ambiental.</p>
            <p>O estudo, portanto, utiliza-se do método hipotético-dedutivo e da revisão de
                literatura, com ênfase nas dimensões doutrinária, normativa e jurisprudencial que
                envolvem a interpretação da CRFB/88, de normas infraconstitucionais, valendo-se da
                análise de julgados do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), do STJ e do
                Supremo Tribunal Federal (STF).</p>
            <p>Quanto à estruturação do artigo, em primeiro momento, analisar-se-á a denominada
                “justiça multiportas”. Em ato contínuo, a natureza jurídica e vantagens da
                arbitragem como método adequado de resolução de conflitos; a importância do meio
                ambiente ecologicamente equilibrado como direito fundamental, de natureza difusa; a
                arbitrabilidade objetiva ou não dos conflitos ambientais; e a atuação da Defensoria
                Pública na arbitragem ambiental em favor dos hipossuficientes quanto à assistência
                jurídica, se admitida nesta seara.</p>
        </sec>
        <sec>
            <title>2 JUSTIÇA MULTIPORTAS</title>
            <p>Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B68">Nalini (2018)</xref>, o Brasil passa a
                impressão ao mundo de que praticamente toda a nação está demandando judicialmente,
                considerando que uma população de 202 milhões de habitantes<xref ref-type="fn"
                    rid="fn1">1</xref> propicia um “espetáculo” de mais de 100 milhões de processos
                    judiciais<xref ref-type="fn" rid="fn2">2</xref>.</p>
            <p>O autor aponta que o processo pode não ser a única forma para a resolução de um
                conflito entre pessoas e que a sua conversão na única resposta para toda e qualquer
                disputa provocou a exaustão do modelo, com a excessiva procura do Judiciário que
                acabou por inviabilizar o cumprimento do princípio constitucional da duração
                razoável do processo (<xref ref-type="bibr" rid="B68">NALINI, 2018</xref>),
                considerando que “justiça atrasada não é justiça, senão injustiça qualificada e
                manifesta”, conforme ensina <xref ref-type="bibr" rid="B5">Barbosa (1997, p.
                    40)</xref>.</p>
            <p>A morosidade judiciária, por sua vez, tem sido constantemente objeto de reclamações
                dos usuários do sistema de justiça<xref ref-type="fn" rid="fn3">3</xref>,<xref
                    ref-type="fn" rid="fn4">4</xref>, representando a celeridade na distribuição da
                justiça um dos maiores desafios na solução dos conflitos<xref ref-type="fn"
                    rid="fn5">5</xref> (<xref ref-type="bibr" rid="B49">FERREIRA; MONTES NETTO;
                    CASTRO, 2020</xref>).</p>
            <p>Do ponto de vista histórico, o acesso à justiça sempre foi marcado pelo formalismo
                dogmático e pela indiferença com relação aos problemas reais, apresentado uma
                preocupação de mera exegese ou da construção abstrata de sistemas, com os estudiosos
                do direito alheios às preocupações reais da população (<xref ref-type="bibr"
                    rid="B35">CAPPELLETTI; GARTH, 1988</xref>).</p>
            <p>Em razão disso, verificou-se a necessidade de modificação da forma de se compreender
                o acesso à justiça, considerando ainda o peso financeiro da máquina judicial, que
                dispõe de recursos humanos altamente qualificados e da sua incapacidade de responder
                à crescente demanda, sendo o problema agravado em períodos de recessão (<xref
                    ref-type="bibr" rid="B78">SILVA, 2018</xref>), como o que se vivencia agora com
                a grave crise sanitária mundial provocada pela COVID-19.</p>
            <p>Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B33">Cahali (2018)</xref>, só a crise do
                Judiciário, em razão do exorbitante número de processos pendentes de julgamento,
                além do crescente surgimento de demandas repetitivas, já indica a necessidade de se
                buscar alternativas com maior eficácia à solução de disputas, agravadas pela cultura
                litigiosa da própria sociedade, o que tem promovido uma intensa judicialização.</p>
            <p>Isso não passou despercebido pelo CNJ, que aprovou a Resolução nº 125, em 29 de
                novembro de 2010 (<xref ref-type="bibr" rid="B13">BRASIL, 2010a</xref>), a qual
                dispõe sobre a “Dispõe sobre a Política Judiciária Nacional de tratamento adequado
                dos conflitos de interesses no âmbito do Poder Judiciário e dá outras providências”,
                reconhecendo que o direito de acesso à Justiça, previsto no art. 5º, XXXV, da
                CRFB/88, “além da vertente formal perante os órgãos judiciários, implica acesso à
                ordem jurídica justa e a soluções efetivas.” (<xref ref-type="bibr" rid="B14"
                    >BRASIL, 1988</xref>, <italic>online</italic>).</p>
            <p>Na mencionada Resolução, o CNJ admitiu a necessidade da instituição de uma política
                pública permanente de incentivo e aperfeiçoamento dos métodos consensuais de
                resolução de conflitos, destacando que a conciliação e a mediação constituem
                mecanismos efetivos de pacificação social e de solução de prevenção de litígios, e
                que o seu incremento tem contribuído para a redução da excessiva judicialização de
                demandas perante o Judiciário, evitando, ainda, a interposição de recursos e o
                cumprimento de sentenças.</p>
            <p>Conforme se observa, cabe ao próprio Judiciário a missão de implantação e
                gerenciamento desses métodos adequados<xref ref-type="fn" rid="fn6">6</xref> de
                solução de disputas, como garantia a todos do acesso à ordem jurídica, de maneiras
                distintas do processo contencioso, cumprindo, assim, o escopo de “distribuir
                justiça” (<xref ref-type="bibr" rid="B33">CAHALI, 2018</xref>).</p>
            <p>Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B84">Watanabe (2005)</xref>, a finalidade da
                instituição desse tipo de política pública é a de proporcionar a solução mais
                adequada das controvérsias, com a participação efetiva das partes na busca do
                resultado que possa satisfazer os seus interesses, preservando o seu bom
                relacionamento e ensejando a “justiça coexistencial”, além da representação da
                redução do volume de processos judiciais como uma mera consequência dessa
                pacificação social, e não um fim sem si mesmo.</p>
            <p>O princípio do acesso à justiça, previsto no art. 5º, inciso XXXV, da CRFB/88, não
                garante apenas o acesso formal ao Judiciário, mas sim um acesso qualificado que
                venha a propiciar ao sujeito “uma ordem jurídica justa”, cabendo ao Judiciário
                organizar não apenas o acesso formal à justiça estatal, mas também o socorro aos
                cidadãos de forma mais abrangente, com a organização dos serviços de solução de
                conflitos por outros métodos adequados, especialmente, os dos meios consensuais da
                conciliação e mediação (<xref ref-type="bibr" rid="B84">WATANABE, 2005</xref>, p.
                684-690).</p>
            <p>No escólio de <xref ref-type="bibr" rid="B33">Cahali (2018, p. 67)</xref>, a
                Resolução nº 125/2010 do CNJ consolidou a implantação do denominado “Tribunal
                Multiportas”, por meio do qual o Estado disponibiliza à sociedade alternativas
                variadas para a resolução das suas controvérsias, com a valorização dos meios
                consensuais como forma de pacificação, deixando de impor às partes o acesso judicial
                como única via adequada.</p>
            <p>Nessa perspectiva, <xref ref-type="bibr" rid="B43">Didier Júnior e Zaneti Júnior
                    (2018, p. 38)</xref> assentam que o processo civil vem sendo objeto de uma
                “radical transformação”, considerando que a justiça estatal clássica não representa
                mais o único método adequado para a resolução de disputas, existindo ao lado dessa
                justiça, de porta única, novas formas de acesso, denominada “justiça
                multiportas”.</p>
            <p>Os autores afirmam que, nessa “nova justiça”, a solução judicial deixa de ter a
                primazia em disputas as quais permitam a autocomposição, passando a representar a
                    “<italic>ultima ratio”, extrema ratio</italic>”, não se confundindo o direito de
                acesso à justiça com o direito de acesso ao Judiciário, constituindo o direito de
                acesso aos tribunais um direito de retaguarda, com o seu exercício antecedido por
                uma série de “filtros” (<xref ref-type="bibr" rid="B43">DIDIER JÚNIOR; ZANETI
                    JÚNIOR, 2018</xref>).</p>
            <p>Se as décadas de 60 e 70 do século anterior representaram um “período de ouro” do
                direito ao acesso aos tribunais, desde os anos 80, tem ocorrido uma permanente
                discussão do desempenho da jurisdição estatal na resolução de disputas, diante do
                seu alto custo e das constantes reclamações com relação ao seu funcionamento,
                indicando a adequação do uso dos tribunais estatais ao seu núcleo duro, “situações
                em que é inelutável a prática de um ato heterónomo vinculante” (<xref
                    ref-type="bibr" rid="B78">SILVA, 2018</xref>, p. 789).</p>
            <p>A autora destaca que tem sido verificada, nos últimos tempos, uma tendência de
                aumento no uso de sistemas não estatais de resolução de conflitos, seja por
                desconfiança no Poder Judiciário, seja em razão da prevalência de ponderação que
                direciona a solução da disputa por uma via autônoma, em detrimento da “clássica
                decisão heterônoma”, com o crescimento exponencial do uso da arbitragem, da
                conciliação e da mediação (<xref ref-type="bibr" rid="B78">SILVA, 2018</xref>).</p>
            <p>Com relação especificamente à arbitragem, <xref ref-type="bibr" rid="B72">Salomão
                    (2014)</xref> assentou que o instituto representa um verdadeiro avanço do
                processo civilizatório da humanidade, que passa a contar com a possibilidade de
                buscar, conscientemente, mecanismos de pacificação social mais eficientes do que a
                atribulada jurisdição estatal.</p>
            <p>Conforme se observa, o acesso à justiça não deve ser confundido com o acesso formal
                ao Poder Judiciário, havendo a possibilidade de as partes elegerem a via mais
                adequada ou conveniente para a solução das suas controvérsias, sem prejuízo da
                atuação da justiça estatal quando as partes assim desejarem ou for realmente
                imprescindível a intervenção judicial, em demandas, por exemplo, envolvendo direitos
                essencialmente indisponíveis.</p>
        </sec>
        <sec>
            <title>3 ARBITRAGEM</title>
            <sec>
                <title>3.1 CONCEITO E NATUREZA JURÍDICA</title>
                <p>A arbitragem representa uma das portas de acesso à justiça, que, apesar de ser
                    uma das mais antigas formas de resolução de disputas<xref ref-type="fn"
                        rid="fn7">7</xref>,<xref ref-type="fn" rid="fn8">8</xref>, apenas, em 1996,
                    com a entrada em vigor da Lei nº 9.307, de 23 de setembro de 1996 (<xref
                        ref-type="bibr" rid="B17">BRASIL, 1996</xref>), tornouse efetivamente uma
                    interessante modalidade de solução de controvérsias, considerando que o Código
                    de Processo Civil de 1973 estabelecia a necessidade de homologação do denominado
                    “laudo arbitral”, por sentença judicial, possibilitando a interposição de
                    recursos, o que convertia o Judiciário em uma espécie de órgão revisor da
                    arbitragem (<xref ref-type="bibr" rid="B49">FERREIRA; MONTES NETTO; CASTRO,
                        2020</xref>), gerando insegurança jurídica e esvaziando o interesse pela sua
                    adoção.</p>
                <p>Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B34">Câmara (1997)</xref>, de acordo com a Lei
                    de Arbitragem em vigor, o instituto pode ser conceituado como um meio
                    paraestatal de solução de conflitos, por intermédio da heterocomposição,
                    configurando uma forma de resolução de disputas com a intervenção de uma ou mais
                    pessoas que receberam poderes das partes, as quais celebraram uma convenção
                    privada, decidindo com base nessa convenção, sem intervenção justiça estatal,
                    assumindo a sentença arbitral eficácia de um título executivo judicial, sem a
                    necessidade de homologação judicial.</p>
                <p>No mesmo sentido, <xref ref-type="bibr" rid="B50">Ferreira, Rocha e Ferreira
                        (2019)</xref> acrescentam que a arbitragem constitui uma vantajosa e
                    adequada modalidade de resolução de disputas, colocando à disposição das partes
                    um instrumento mais célere do que o Judiciário, devendo ser destacado que, no
                    procedimento arbitral, a sentença deverá ser proferida em seis meses, caso as
                    partes não tenham convencionado outro prazo, conforme estabelece o artigo 23 da
                    Lei de Arbitragem.</p>
                <p>No que se refere à sua natureza jurídica, é possível encontrar, na doutrina,
                    quatro correntes, quais sejam: <bold>i) contratual</bold>: a qual defende que a
                    arbitragem é um contrato originado de um negócio jurídico bilateral (<xref
                        ref-type="bibr" rid="B39">CHIOVENDA, 1942</xref>; <xref ref-type="bibr"
                        rid="B30">BUENO, 2011</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B85">ZAVASCKI,
                        2003</xref>); <bold>ii) jurisdicional</bold>: corrente predominante na
                    doutrina, considera que o artigo 18 da Lei de Arbitragem estabelece que o
                    árbitro atua como juiz de fato e de direito, exercendo verdadeira jurisdição,
                    equiparando, no art. 31, desse mesmo diploma legal, a sentença arbitral à
                    judicial (<xref ref-type="bibr" rid="B36">CARMONA, 2009</xref>; <xref
                        ref-type="bibr" rid="B62">MARTINS, 2008</xref>; <xref ref-type="bibr"
                        rid="B80">THEODORO JÚNIOR, 2005</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B33"
                        >CAHALI, 2018</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B52">FIGUEIRA JÚNIOR,
                        1999</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B3">ALVIM, 2016</xref>; <xref
                        ref-type="bibr" rid="B45">DINAMARCO, 2013</xref>; <xref ref-type="bibr"
                        rid="B22">BRASIL, 2010b</xref>); <bold>iii) teoria mista, híbrida ou
                        sincrética</bold>: reúne as duas teorias citadas anteriormente, preconizando
                    que existe um contrato no início da arbitragem, sendo jurisdicional a sua função
                        (<xref ref-type="bibr" rid="B41">CRETELLA NETO, 2004</xref>; <xref
                        ref-type="bibr" rid="B60">MAGALHÃES; BAPTISTA, 1986</xref>; <xref
                        ref-type="bibr" rid="B58">LEMES, 2007</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B6"
                        >BARROCAS, 2013</xref>); <bold>iv) teoria autônoma</bold>: prega que a
                    arbitragem possui natureza autônoma, totalmente desvinculada de qualquer
                    ordenamento jurídico, contando com o amplo reconhecimento da comunidade
                    internacional (<xref ref-type="bibr" rid="B70">RUBELLIN-DEVICHI,
                    1965</xref>).</p>
                <p>Destarte, é possível observar que há grande polêmica na doutrina com relação à
                    natureza jurídica da arbitragem, com a prevalência da corrente que lhe atribui
                    natureza jurisdicional, o que é reforçado pela redação dos artigos 18 e 31 da
                    Lei de Arbitragem, bem como pelo entendimento do STJ (<xref ref-type="bibr"
                        rid="B22">BRASIL, 2010b</xref>).</p>
            </sec>
            <sec>
                <title>3.2 VANTAGENS DA ELEIÇÃO DA ARBITRAGEM COMO MEIO ADEQUADO DE RESOLUÇÃO DE
                    DISPUTAS</title>
                <p>Conforme observam <xref ref-type="bibr" rid="B51">Fichtner, Mannheimer e Monteiro
                        (2019)</xref>, tem sido notável a evolução da arbitragem no Brasil, nos
                    últimos anos, tornando importante a análise das suas vantagens como método
                    adequado de solução de disputas que fizeram os países editar normas específicas
                    sobre o tema e ensejaram a intensa participação da comunidade internacional na
                    sua consolidação.</p>
                <p>Os autores apontam que, no plano concreto, que interessa particularmente ao
                    presente estudo, o exame dessas vantagens é fundamental para que as partes
                    possam eleger, com segurança, o melhor instrumento adequado para a solução das
                    suas disputas, tendo em vista que, como a arbitragem pressupõe a sua escolha
                    pelas partes, é necessário que elas estejam bem informadas com relação às suas
                    características, avaliando as vantagens e desvantagens da sua adoção, de modo a
                    permitir uma opção consciente (<xref ref-type="bibr" rid="B51">FICHTNER;
                        MANNHEIMER; MONTEIRO, 2019</xref>).</p>
                <p>Nessa perspectiva, passa-se à análise das possíveis vantagens da adoção da
                    arbitragem na resolução de conflitos, envolvendo o meio ambiente, quais sejam,
                    celeridade, escolha de árbitro(s) especializado(s), flexibilidade procedimental,
                    possibilidade de eventual redução de custos:</p>
                <p><bold>i) celeridade</bold>: representa uma das mais destacadas vantagens da
                    adoção da arbitragem, diante da já mencionada morosidade judicial, que
                    representa um dos maiores focos de reclamação dos usuários do sistema de
                    justiça. Nesse sentido, enquanto o art. 23 da Lei de Arbitragem estabelece que o
                    procedimento arbitral deve ser concluído, em regra, após seis meses, os
                    processos judiciais, segundo dados do CNJ, possuem o tempo médio de duração, no
                    2º grau, de 2 anos e 1 mês, na fase de conhecimento de 1º grau, de 3 anos e 6
                    meses e, na fase de execução do 1º grau, de 6 anos e 9 meses (<xref
                        ref-type="bibr" rid="B9">BRASIL, 2020a</xref>), sem contar a possibilidade
                    da interposição de recursos perante os tribunais superiores. Com relação à
                    duração das arbitragens em casos concretos, de acordo com pesquisa realizada
                    pela Fundação Getúlio Vargas (FGV):</p>
                <disp-quote>
                    <p>[...] para um conjunto de 42 arbitragens, cinco foram concluídas em menos de
                        um ano e 27 em menos de dois anos. Nesse universo, cinco procedimentos
                        consumiram mais de dois anos e quatro excederam três anos. Há somente um
                        caso extremo no qual a sentença exigiu um tempo de quatro anos (<xref
                            ref-type="bibr" rid="B38">CHACEL; LOSS, 2017</xref>, p. 35).</p>
                </disp-quote>
                <p>Na justiça estatal, a possibilidade de interposição de sucessivos recursos,
                    inclusive junto aos tribunais superiores, torna impossível estimar o prazo de
                    duração dos processos, valendo citar o notório caso envolvendo a disputa do
                    Palácio Guanabara, apreciado pelo STF em 2020, tendo sido a ação ajuizada em
                    1895, atravessando três séculos distintos (<xref ref-type="bibr" rid="B1"
                        >AGÊNCIABRASIL, 2020</xref>).</p>
                <p><bold>ii) escolha de árbitro(s) especializado(s)</bold>: com relação a esse
                    ponto, <xref ref-type="bibr" rid="B69">Pugliese e Salama (2008)</xref> salientam
                    que uma das vantagens da arbitragem consiste na possibilidade de escolha de
                    árbitros que tenham familiaridade com a matéria objeto da disputa, considerando
                    que, ao contrário do juiz estatal, o árbitro pode ter formação específica em
                    área técnica que interessa diretamente ao objeto da arbitragem. Por exemplo,
                    para uma questão que envolve contrato da área de mineração, é possível a
                    nomeação de um árbitro que tenha vários anos de experiência no ramo,
                    contribuindo a especialização para a redução de erros nas decisões, pois a
                    chance de um árbitro especializado cometer um equívoco, por desconhecimento da
                    matéria, é menor. <bold>iii) flexibilidade procedimental</bold>: conforme
                    observam <xref ref-type="bibr" rid="B51">Fichtner, Mannheimer e Monteiro
                        (2019)</xref>, as normas processuais são elaboradas para servir como molde
                    para a solução de um grande leque de casos, alguns bem diferentes entre si. Na
                    arbitragem, no entanto, o procedimento é mais flexível, existindo a
                    possibilidade de se moldar o procedimento às características específicas do
                    caso, contribuindo para a redução das diferenças culturais e para a observância
                    das especificidades do caso concreto. A Lei de Arbitragem prestigiou, ao máximo,
                    a flexibilidade do procedimento arbitral, em comparação com a legislação de
                    outros países, o que defendem ser muito positivo (<xref ref-type="bibr"
                        rid="B51">FICHTNER; MANNHEIMER; MONTEIRO, 2019</xref>, p. 57).</p>
                <p>Destarte, permite-se, no procedimento arbitral, a adoção de diversas
                    informalidades com o objetivo de que o conflito seja solucionado da forma mais
                    adequada possível, desde que as regras estipuladas não ofendam a ordem pública
                    (art. 2º, § 1º, da Lei de Arbitragem) ou configurem hipóteses passíveis de ação
                    anulatória (art. 32).</p>
                <p><bold>iv) possibilidade de eventual redução de custos</bold>: com relação a esse
                    tópico, <xref ref-type="bibr" rid="B51">Fichtner, Mannheimer e Monteiro
                        (2019)</xref> assentam que inexistem dados estatísticos que demonstrem
                    efetivamente a questão do custo da arbitragem. No entanto, a doutrina pondera
                    que, por não estar o procedimento arbitral sujeito à rigidez procedimental da
                    justiça estatal, o tempo de espera por uma decisão, conforme destacado
                    anteriormente, em média, é bem menor, eliminando o custo de oportunidade<xref
                        ref-type="fn" rid="fn9">9</xref> que as partes, por vezes, têm de arcar
                    quando levam as suas disputas para o Judiciário (<xref ref-type="bibr" rid="B69"
                        >PUGLIESE; SALAMA, 2008</xref>, p. 20). Além disso, a “maior eficiência da
                    arbitragem na solução de disputas cria incentivos para o adimplemento das
                    obrigações contratuais pelas partes”, que sabem que não podem contar com a
                    eventual morosidade no desfecho do conflito, como geralmente ocorre no Poder
                    Judiciário.</p>
                <p>Isso sem falar na necessidade de inclusão no cálculo dos custos totais do tempo
                    tomado das partes, dos gastos com o pagamento de honorários advocatícios, custas
                    e despesas processuais ao longo do processo, considerando que a atuação poderá
                    se estender da primeira instância até os tribunais superiores, com a
                    possibilidade da interposição de uma infinidade de recursos judiciais que irão
                    tornar imprevisível o tempo de duração da disputa, sendo as decisões proferidas
                    pelos árbitros irrecorríveis (art. 18 da Lei de Arbitragem), salvo a
                    possibilidade do pedido de correção de erro material ou de esclarecimento de
                    omissão, que se assemelha aos embargos de declaração na esfera judicial (art.
                    30).</p>
                <p>Diante de todo o exposto, em que pese à ausência de estudos específicos,
                    especialmente sobre a possibilidade da redução de custos com a adoção da
                    arbitragem, o que poderá ser analisado em trabalho específico, existem
                    indicativos de que esse método adequado de resolução de disputas não deve ser
                    ignorado pelas partes para a solução das suas controvérsias, de modo que exerçam
                    uma escolha consciente, adotando-o ou não como o mais conveniente em determinado
                    caso concreto.</p>
            </sec>
        </sec>
        <sec>
            <title>4 ARBITRAGEM COMO MÉTODO ADEQUADO PARA A RESOLUÇÃO DE CONFLITOS ENVOLVENDO O MEIO
                AMBIENTE</title>
            <sec>
                <title>4.1 DO DIREITO AO MEIO AMBIENTE NA CRFB/88</title>
                <p>Conforme destacam <xref ref-type="bibr" rid="B76">Sarlet e Fensterseifer
                        (2010)</xref>, a partir de meados dos anos 1970, diversas Constituições, sob
                    a influência de tratados e declarações sobre o meio ambiente, tanto pela
                    urgência de adoção de uma cultura ambientalista quanto pela razão dos valores
                    ecológicos atualmente defendidos, “consagraram o direito a um ambiente
                    equilibrado ou saudável como direito humano e fundamental”, considerando-o
                    essencial para a manutenção da dignidade humana.</p>
                <p>No Brasil, o art. 225, <italic>caput</italic>, da CRFB/88, estabelece que todos
                    possuem direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, considerado bem de
                    uso comum do povo e essencial à sadia qualidade vida, com a imposição ao Estado
                    e à coletividade do dever de defendê-lo e preservá-lo, tanto para as presentes
                    quanto para as futuras gerações, sendo esse dispositivo constitucional
                    considerado por <xref ref-type="bibr" rid="B7">Benjamin (2007)</xref> como “mãe”
                    de todos os direitos ambientais estabelecidos no diploma constitucional.</p>
                <p><xref ref-type="bibr" rid="B79">Silva (2003)</xref> sustenta que a CRFB/88 é um
                    documento predominantemente ambientalista, enquanto <xref ref-type="bibr"
                        rid="B77">Sarlet e Fensterseifer (2011)</xref> a denominam “Constituição
                    Verde” ou “Constituição Ecológica”.</p>
                <p><xref ref-type="bibr" rid="B75">Sarlet (2014)</xref>, após afirmar que o Estado
                    Socioambiental brasileiro decorrente da CRFB/88 adota um modelo antropocêntrico,
                    consagrando a dignidade da pessoa humana no seu pórtico, destaca que tem sido
                    sustentada, nos últimos tempos, a existência de um antropocentrismo ecológico,
                    mais alargado.</p>
                <p>Com relação ao dever de defesa e preservação do meio ambiente para as gerações
                    futuras, <xref ref-type="bibr" rid="B66">Miranda (2018, p. 49)</xref> observa
                    que “incindível do olhar para as gerações futuras, é o olhar para a
                    sustentabilidade”, sendo reconhecida por <xref ref-type="bibr" rid="B82"
                        >Trindade (1993)</xref> a relação direta e plena entre o direito ao meio
                    ambiente e o direito à vida.</p>
                <p>No que se refere às suas características, <xref ref-type="bibr" rid="B48">Fazolli
                        (2009)</xref> aponta as seguintes: i) historicidade; ii)
                        <italic>status</italic> de cláusula pétrea; iii) interpretação favorável em
                    caso de conflito de normas; iv) imprescritibilidade; v) inalienabilidade; vi)
                    aplicabilidade imediata; vii) preservação do meio ambiente como obrigação
                        <italic>propter rem</italic>.</p>
                <p>O STF, no julgamento da ADI 3.540-MC (<xref ref-type="bibr" rid="B27">BRASIL,
                        2005b</xref>), reconheceu o direito à integridade do meio ambiente como
                    fundamental típico de terceira geração, constituindo prerrogativa jurídica de
                    titularidade coletiva, que integra um processo de afirmação dos direitos
                    humanos, correspondendo à expressão significativa de um poder atribuído não ao
                    indivíduo identificado na sua singularidade, mas num sentido bastante
                    abrangente, à própria coletividade social.</p>
                <p>Nos termos do art. 81, I, do Código de Defesa do Consumidor (CDC) (<xref
                        ref-type="bibr" rid="B16">BRASIL, [1990]</xref>), o direito ao meio ambiente
                    é considerado difuso, enquadrando-se como transindividual, de natureza
                    indivisível, apresentando como titulares pessoas indeterminadas que estão
                    ligadas por circunstâncias de fato.</p>
                <p>A CRFB/88 buscou criar instrumentos de garantia da efetividade desse, inclusive
                    com determinações particulares, utilizando-se de um alto grau de detalhamento,
                    com a finalidade de dar máxima concretude a esse direito fundamental (<xref
                        ref-type="bibr" rid="B47">FARIAS, 2018</xref>).</p>
                <p>Diante do exposto, é relevante investigar sobre a possibilidade de utilização da
                    arbitragem em conflitos, envolvendo o meio ambiente, considerado pela doutrina
                    como um direito fundamental e um bem difuso.</p>
            </sec>
            <sec>
                <title>4.2 ARBITRABILIDADE OBJETIVA DOS CONFLITOS AMBIENTAIS</title>
                <p>No que se refere às matérias passíveis da utilização da via arbitral, denominada
                    arbitrabilidade objetiva, <xref ref-type="bibr" rid="B50">Ferreira, Rocha e
                        Ferreira (2019)</xref> afirmam que o artigo 1º da Lei de Arbitragem
                    estabelece que essa modalidade adequada de solução de disputas apenas deve ser
                    utilizada em situações que envolvem direitos patrimoniais disponíveis, existindo
                    um grupo de matérias absolutamente inarbitráveis, a exemplo dos direitos
                    relativos à capacidade e ao estado civil das pessoas e das famílias, litígios
                    referentes a direitos personalíssimos, sobre bens fora do comércio, determinados
                    créditos da Fazenda Pública, matérias criminais, execuções de sentença e de
                    títulos executivos extrajudiciais, dentre outros.</p>
                <p>No entanto, <xref ref-type="bibr" rid="B36">Carmona (2009)</xref> pondera que a
                    matéria em si não é suficiente para excluir de forma absoluta a possibilidade da
                    utilização da arbitragem, tendo em vista que, mesmo em questões envolvendo o
                    direito de família e o criminal, por exemplo, ocorrem consequências patrimoniais
                    que podem ser objeto de disposição pelas partes e de solução extrajudicial.</p>
                <p>Com relação ao direito português, <xref ref-type="bibr" rid="B78">Silva
                        (2018)</xref> destaca que o sucesso dos meios extrajudiciais em solução de
                    disputas é tão grande que tem sido realizada a sua expansão para zonas tão
                    improváveis como o direito tributário, existindo expressa previsão legal da
                    utilização da arbitragem em litígios que envolvem matéria tributária ou
                    penal.</p>
                <p>Mesmo em conflitos envolvendo a Administração Pública, com a ampla incidência de
                    princípios de direito público, como a legalidade, indisponibilidade e supremacia
                    do interesse público sobre o privado, antes mesmo da edição da Lei nº 13.129/15,
                    que passou a admitir expressamente a arbitragem em conflitos envolvendo a
                    Administração Pública, a jurisprudência do STJ era pacífica ao permitir a
                    utilização da arbitragem (<xref ref-type="bibr" rid="B24">BRASIL, 2005a</xref>,
                        <xref ref-type="bibr" rid="B23">2007</xref>, <xref ref-type="bibr" rid="B25"
                        >2011</xref>), não restando atualmente a menor dúvida quanto ao seu
                    cabimento.</p>
                <p>A utilização da arbitragem na resolução de conflitos patrimoniais disponíveis tem
                    sido admitida pela doutrina especializada inclusive no direito tributário, no
                    qual existe uma sólida corrente doutrinária defendendo o seu uso (<xref
                        ref-type="bibr" rid="B50">FERREIRA; ROCHA; FERREIRA, 2019</xref>; <xref
                        ref-type="bibr" rid="B56">GUERRERO, 2020</xref>; <xref ref-type="bibr"
                        rid="B46">ESCOBAR, 2020</xref>). Quanto ao direito ambiental, diante da sua
                    natureza fundamental, coletiva e difusa, surgem dúvidas quanto à possibilidade
                    de aplicação da arbitragem.</p>
                <p><xref ref-type="bibr" rid="B50">Ferreira, Rocha e Ferreira (2019)</xref>
                    esclarecem que a referida natureza por si só não é suficiente para afastar a
                    aplicação da arbitragem aos litígios ambientais, considerando que existem
                    direitos patrimoniais disponíveis no âmbito desses conflitos, possuindo o meio
                    ambiente bens disponíveis e indisponíveis.</p>
                <p>Nesse sentido, a eventual responsabilidade penal ou administrativa decorrente de
                    um dano ambiental não se enquadraria no conceito de disponibilidade, para fins
                    de configuração da arbitrabilidade objetiva. No entanto, no que se refere à
                    responsabilidade civil, verifica-se a existência de duas dimensões, uma coletiva
                    e outra individual, possibilitando a utilização da arbitragem com relação à
                    segunda, que possui caráter privado e patrimonial (<xref ref-type="bibr"
                        rid="B50">FERREIRA; ROCHA; FERREIRA, 2019</xref>, p. 155).</p>
                <p><xref ref-type="bibr" rid="B59">Lima (2010, p. 120)</xref>, em obra específica
                    sobre o tema, sustenta que as pretensões que envolvem a recomposição do dano
                    ambiental podem ser submetidas à arbitragem, considerando que a permissão legal
                    para a transação por meio de compromisso de ajustamento de conduta, prevista no
                    art. 5º, § 6º, da Lei da Ação Civil Pública (<xref ref-type="bibr" rid="B15"
                        >BRASIL, 1985</xref>), serve de fundamento para a interpretação extensiva da
                    Lei de Arbitragem.</p>
                <p>Segundo Nery (2016), outro fundamento para a admissão do uso da arbitragem em
                    conflitos ambientais, no direito brasileiro, consiste no fato de que as
                    pretensões de caráter patrimonial não desafiam a problemática da análise da
                    disponibilidade do direito, destacando a autora que, no âmbito da arbitragem
                    internacional, há tempos, é comum a análise de questões, envolvendo o meio
                    ambiente, a exemplo dos casos: i) <italic>Pacific Fur Seal Arbitration</italic>,
                    de 1983, que opôs o Reino Unido aos Estados Unidos da América, num conflito
                    versando sobre atividades de pesca em alto mar; ii) <italic>Trail Smelter
                        Arbitration</italic>, de 1935, referente ao conflito entre Estados Unidos e
                    Canadá sobre a emissão de dióxido de enxofre para a atmosfera, originado de uma
                    fundição canadense que afetava o estado de Washington; iii) <italic>Lac
                        Lanoux</italic>, de 1953, que colocou em confronto a França e a Espanha com
                    relação à partilha de águas internacionais provenientes do Lago Lanoux,
                    localizado nos Pirineus.</p>
                <p>Na doutrina nacional, muitos outros autores também defendem a possibilidade da
                    utilização da via arbitral para a resolução de conflitos que envolvem o meio
                    ambiente que possuam caráter patrimonial e disponível (Cf. <xref ref-type="bibr"
                        rid="B40">COLOMBO, 2016</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B71">SALIM;
                        SILVA, 2015</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B55">GRINOVER; GONÇALVES,
                        2006</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B50">FERREIRA; ROCHA; FERREIRA,
                        2019</xref>; NERY, 2016; <xref ref-type="bibr" rid="B59">LIMA, 2010</xref>;
                        <xref ref-type="bibr" rid="B37">CEBOLA, 2012</xref>; <xref ref-type="bibr"
                        rid="B53">FREITAS; COLOMBO, 2017</xref>; <xref ref-type="bibr" rid="B4"
                        >ASSIS; ARAÚJO, 2014</xref>).</p>
                <p>No âmbito da jurisprudência, o próprio Superior Tribunal de Justiça (STJ) possui
                    julgamento favorável à aplicação da arbitragem em conflito envolvendo o meio
                    ambiente. Em caso no qual se discutia a competência para apreciar a execução de
                    cédulas de crédito bancário que lastrearam o financiamento de uma pequena
                    central hidrelétrica, processada em São Paulo, cuja exigibilidade foi suspensa
                    por uma decisão proferida em sede de ação cautelar incidental a uma ação civil
                    pública ajuizada em Vilhena/RO, com a finalidade de discutir danos
                    socioambientais decorrentes de acidente ocorrido na barragem da hidrelétrica, a
                    Corte Superior reconheceu a competência do tribunal arbitral para a análise das
                    questões controvertidas relacionadas ao sinistro ocorrido quando da construção
                    da central hidrelétrica e à própria exigibilidade das cártulas (<xref
                        ref-type="bibr" rid="B21">BRASIL, 2013</xref>).</p>
                <p>O Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), em julgamento de apelação
                    interposta em ação de anulação de ato jurídico, na qual o autor alegou que a ré,
                    Samarco Mineração S/A, ao implantar um duto, causou danos ambientais na sua
                    propriedade, que, no seu entendimento, seriam indisponíveis, confirmou a
                    validade de cláusula compromissória instituída de comum acordo entre as partes,
                    mantendo a sentença de primeiro grau que extinguiu o processo sem o julgamento
                    do mérito (<xref ref-type="bibr" rid="B64">MINAS GERAIS, 2015a</xref>).</p>
                <p>No mesmo sentido, em outra apelação cível, na qual a parte apelante alegou a
                    impossibilidade da utilização da arbitragem para a análise de pedido de
                    indenização por danos ambientais decorrentes do transporte de minério de ferro
                    por meio de minerodutos, ação também promovida contra a Samarco Mineração S/A, o
                    Tribunal de Minas Gerais reconheceu a validade da cláusula compromissória e a
                    competência do tribunal arbitral para resolver a questão, confirmando a sentença
                    de primeiro grau que extinguiu o processo sem o julgamento do mérito (<xref
                        ref-type="bibr" rid="B65">MINAS GERAIS, 2015b</xref>).</p>
                <p>Assim, ressalvadas as responsabilizações penal e administrativa, bem como a
                    proteção ao meio ambiente no seu aspecto difuso, indisponível, verifica-se uma
                    tendência de admissão da arbitragem para a resolução de questões ambientais
                    patrimoniais e disponíveis.</p>
            </sec>
        </sec>
        <sec>
            <title>5 DA DEFENSORIA PÚBLICA</title>
            <p>Em "Acesso à justiça", <xref ref-type="bibr" rid="B35">Cappelletti e Garth (1988, p.
                    31-68)</xref> buscam apontar soluções práticas para os problemas de acesso à
                justiça, por meio das denominadas "ondas renovatórias", correspondendo a “primeira
                onda” à assistência judiciária aos pobres, a “segunda onda” à representação dos
                interesses difusos, reconhecendo que enfoque de acesso à justiça tem alcance muito
                mais amplo, incluindo ainda a “terceira onda”, que compreende a advocacia judicial e
                extrajudicial, por meio de advogados particulares ou públicos, concentrando os seus
                esforços na tentativa de tornar efetivos os direitos de indivíduos e grupos que
                historicamente foram privados dos benefícios de uma “justiça igualitária”, o que se
                observa com relação aos mais pobres que são objeto da atuação das Defensorias
                Públicas.</p>
            <p>O denominado "Global Access to Justice Project"<xref ref-type="fn" rid="fn10"
                    >10</xref> cogita ainda a existência de uma "quarta onda" de acesso à justiça,
                correspondente à "ética nas profissões jurídicas e acesso dos advogados à justiça",
                uma "quinta onda", intitulada "o contemporâneo processo de internacionalização da
                proteção dos direitos humanos", e uma "sexta onda" sobre as "iniciativas promissoras
                e novas tecnologias para aprimorar o acesso à justiça" (<xref ref-type="bibr"
                    rid="B54">GLOBAL ACCESS TO JUSTICE PROJECT, 2020</xref>).</p>
            <p>Ao discorrer sobre o que se faz necessário para que ocorra "uma revolução democrática
                da Justiça", <xref ref-type="bibr" rid="B74">Santos (2011, p. 32)</xref> destaca que
                é preciso "a criação de uma outra cultura de consulta jurídica e de assistência e
                patrocínio judiciário, em que as defensorias públicas terão um papel muito
                relevante".</p>
            <p>O autor afirma que, dentro do sistema de justiça, a Defensoria Pública se apresenta
                como o órgão que tem mais condições de responder à procura judicial reprimida,
                cabendo aos defensores públicos, no seu dia a dia, a aplicação da "sociologia das
                ausências", de forma a afirmar os direitos dos cidadãos "intimidados e impotentes",
                "cuja procura por justiça, assim como o conhecimento do/s direito/s têm sido
                suprimidos e ativamente reproduzidos como não existentes" (<xref ref-type="bibr"
                    rid="B74">SANTOS, 2011</xref>, p. 33).</p>
            <p>A primeira Constituição brasileira que previu expressamente a assistência judiciária
                foi a de 1934, tendo essa garantia individual sido suprimida no texto da Carta de
                1937, ressurgindo posteriormente nas Constituições de 1946 e 1967.</p>
            <p>Nessa perspectiva, a CRFB/88 apresentou um grande avanço ao conferir
                    <italic>status</italic> de garantia fundamental à assistência jurídica integral
                e gratuita, que deve ser prestada aos que comprovem insuficiência de recursos (art.
                5º, LXXIV), e ao reconhecer a Defensoria Pública como uma função essencial à
                justiça, abandonando a expressão “assistência judiciária”, adotada nas Constituições
                anteriores, passando a prever uma garantia bem mais ampla, denominada “assistência
                jurídica integral e gratuita”.</p>
            <p>Nos últimos tempos, considerando que a Defensoria Pública age em benefício dos
                necessitados <italic>lato sensu</italic>, tem-se defendido a possibilidade da sua
                atuação como <italic>custos vulnerabilis et plebis</italic>, como guardiã dos
                vulneráveis e dos excluídos, bem como amiga das comunidades carentes <italic>amicus
                    communitas</italic><xref ref-type="fn" rid="fn11">11</xref> (<xref
                    ref-type="bibr" rid="B73">SANTIAGO; MAIA, 2019</xref>).</p>
            <p>Dessa forma, haveria legitimidade ativa da Defensoria Pública para tutelar
                coletivamente segmentos sociais vulneráveis, adotando-se um conceito amplo de
                necessitado, que não se restringe ao viés financeiro, legitimando-se a Defensoria
                Pública para a defesa de grupos sociais vulneráveis (<xref ref-type="bibr" rid="B61"
                    >MAIA, 2015</xref>, p. 379-380), a exemplo das vítimas de tragédias
                ambientais.</p>
            <p>Na lição de <xref ref-type="bibr" rid="B31">Bueno (2018, p. 219)</xref>, o
                    <italic>custos vulnerabilis</italic> apresenta a vantagem de colocar lado a lado
                a atuação interventiva atribuída à Defensoria Pública e a tradicional do Ministério
                Público, como deve ocorrer por se tratarem de funções essenciais à justiça, devendo
                o “fiscal dos direitos vulneráveis” atuar sempre que os direitos e/ou interesses dos
                processos, mesmo que individuais, justifiquem a oitiva/consideração do
                posicionamento institucional da Defensoria Pública, inclusive nos processos
                formadores ou modificadores dos “indexadores jurisprudenciais”, configurando-se uma
                “legitimação decisória indispensável e que não pode ser negada a qualquer
                título”.</p>
            <p>Trata-se, contudo, de um tema recente e em construção, que ainda não foi objeto de
                apreciação explícita pelo Supremo Tribunal Federal (STF), demandada a elaboração de
                trabalhos acadêmicos específicos sobre os seus eventuais contornos e limites.</p>
            <p>No entanto, no Habeas Corpus nº 143641 (<xref ref-type="bibr" rid="B29">BRASIL,
                    2017b</xref>), impetrado pela Defensoria Pública da União, em favor de todas as
                mulheres presas preventivamente que sejam gestantes, puérperas ou mães de crianças
                sob sua responsabilidade, bem como em nome das próprias crianças, embora sem
                empregar o rótulo de <italic>custos vulnerabilis</italic>, a Suprema Corte admitiu o
                ingresso das Defensorias Públicas do Ceará e do Paraná<xref ref-type="fn" rid="fn12"
                    >12</xref> na condição de assistentes, aplicando por analogia do art. 121 do
                CPC.</p>
            <p>Posteriormente, o Pretório Excelso admitiu o ingresso ao feito de todas as
                Defensorias Públicas que requeressem a sua admissão nos autos, na qualidade de
                    <italic>amici curiae</italic> (BRASIL, 2017c).</p>
            <p>A Segunda Seção do STJ, no Recurso Especial nº 1.712.163-SP, envolvendo a análise da
                possibilidade de se obrigar plano de saúde a fornecer medicamento importado não
                registrado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), afetado sob o
                rito dos recursos repetitivos (Tema 990), deferiu a participação nas discussões da
                União, da Federação Nacional de Saúde Suplementar (FENASAÚDE), da Agência Nacional
                de Saúde Suplementar (ANS), do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS) e da
                Defensoria Pública da União (DPU), na qualidade de <italic>amicus
                curiae</italic>.</p>
            <p>Em face dessa decisão, a DPU opôs embargos de declaração (<xref ref-type="bibr"
                    rid="B26">BRASIL, 2019</xref>), sustentando que requereu a sua intervenção como
                    <italic>custos vulnerabilis</italic> e não como <italic>amicus curiae,</italic>
                pedindo que a questão fosse expressamente analisada, tendo o STJ acolhido os
                embargos de declaração, reconhecendo a possibilidade de intervenção da DPU com
                    <italic>custos vulnerabilis,</italic> por se tratar de hipótese em que se
                discute a formação de precedente em favor dos vulneráveis e dos direitos
                humanos.</p>
            <p>Outra importante questão que já foi objeto de análise pelo Pretório Excelso foi a
                possibilidade do ajuizamento de Ação Civil Pública (ACP) pela Defensoria Pública,
                diante sa alteração legislativa, promovida pela Lei nº 11.448, de 15.01.2007, que
                incluiu a Defensoria Pública no rol dos legitimados para o ajuizamento de ações
                coletivas, alterando a redação do art. 5º da Lei n. 7.347/85 (Lei da Ação Civil
                Pública — LACP).</p>
            <p>Essa ampliação da legitimação ativa foi questionada no STF pela Associação Nacional
                dos Membros do Ministério Público (CONAMP), na ADI 3.943/DF (<xref ref-type="bibr"
                    rid="B28">BRASIL, 2015c</xref>), sob a alegação de suposta ofensa aos art. 5º,
                LXXIV, e art. 134, <italic>caput</italic>, da CRFB/88, em sua redação original,
                antes da EC n. 80/2014.</p>
            <p>O STF, por unanimidade, julgou improcedente o pedido, declarando a
                constitucionalidade da Lei n. 11.448/2007 e reconhecendo a inexistência de
                exclusividade do Ministério Público para o ajuizamento de ACP, bem como a ausência
                de prejuízo institucional do Ministério Público, em decorrência do reconhecimento da
                Legitimidade da Defensoria Pública.</p>
            <p>Consignou-se nesse julgamento que a presunção de que, no rol dos legitimados, constem
                pessoas necessitadas é suficiente para justificar a legitimidade da Defensoria
                Pública, de modo a não “esvaziar, totalmente, as finalidades que originaram a
                Defensoria Pública como função essencial à Justiça”, sendo possível que,
                reflexamente, pessoas que não sejam consideradas necessitadas possam se ser
                beneficiadas com o resultado da ACP, ajuizado pela Defensoria Pública.</p>
            <p>Exemplificando, caso a Defensoria Pública ajuize uma ACP contra uma operadora de
                plano de saúde para obrigá-la a fornecer determinado tipo de tratamento, eventual
                procedência da ação irá beneficiar tanto os titulares daquele plano de saúde que
                forem considerados hipossuficientes, quanto, reflexamente, aqueles que não o são, em
                razão da indivisibilidade do objeto da demanda, diante do que a doutrina dos Estados
                Unidos denomina como <italic>free rider</italic> (carona) (<xref ref-type="bibr"
                    rid="B83">VALLE, 2018</xref>), conforme expressamente assentado no julgamento do
                Recurso Extraordinário nº 733.433 (BRASIL, 2015).</p>
            <p>O referido julgamento representou o <italic>leading case</italic> do Tema 607, com
                repercussão geral, tendo sido firmada a seguinte tese: “a Defensoria Pública tem
                legitimidade para a propositura da ação civil pública em ordem a promover a tutela
                judicial de direitos difusos e coletivos de que sejam titulares, em tese, pessoas
                necessitadas” (ARE 690.838, reautuado como RE 733.433, Rel. Min. Dias Toffoli, j.
                04.11.2015, DJE de 07.04.2016) (BRASIL, 2015, <italic>online</italic>).</p>
            <p>Diante do exposto, cada vez mais tem sido reconhecida a importância da Defensoria
                Pública, com base na ampliação das suas atribuições, admitindo-se a sua intervenção
                até em casos em que não figura como parte, na qualidade de assistente, com
                fundamento no CPC, <italic>amicus curiae</italic> ou <italic>custos
                    vulnerabilis,</italic> podendo ainda a atuação do órgão resultar eventualmente
                benefícios reflexos a pessoas que não se enquadram como necessitadas, conforme
                exposto.</p>
            <sec>
                <title>5.1 DA ATUAÇÃO DA DEFENSORIA PÚBLICA NA ARBITRAGEM AMBIENTAL EM FAVOR DOS
                    HIPOSSUFICIENTES</title>
                <p>A justiça estatal não é a única via para a resolução de conflitos, sustentando a
                    doutrina e o próprio CNJ, por meio da Resolução nº 125/2010, a existência de uma
                    justiça multiportas.</p>
                <p>Assim, surge a necessidade de se garantir o acesso ao meio mais adequado para a
                    resolução de um conflito, que nem sempre será a via judicial, conforme se
                    destacou no caso envolvendo a disputa do Palácio Guanabara, cuja ação foi
                    ajuizada em 1885, sendo o processo definitivamente decidido apenas em 2020 pelo
                    STF.</p>
                <p>Em matéria de proteção ao meio ambiente, são comuns casos que envolvem problemas
                    estruturais que, de acordo com <xref ref-type="bibr" rid="B44">Didier Júnior,
                        Zaneti Júnior e Oliveira (2020, p. 104)</xref>, caracterizam uma “situação
                    de ilicitude contínua e permanente ou uma situação de desconformidade, ainda que
                    não propriamente ilícita, no sentido de que não corresponde ao estado de coisas
                    considerado ideal”.</p>
                <p>Esses problemas são marcados por situações de desorganização estrutural, de
                    rompimento com a normalidade ou com o estado ideal de coisas, exigindo uma
                    intervenção “(re)estruturante” (<xref ref-type="bibr" rid="B44">DIDIER JÚNIOR;
                        ZANETI JÚNIOR; OLIVEIRA 2020</xref>).</p>
                <p>Com relevantes exemplos de problemas estruturais em matéria ambiental,
                    destacam-se o rompimento de uma barragem na cidade mineira de Mariana, em 2015,
                    e da barragem de Brumadinho-MG, em 2019, contabilizando centenas de mortos e
                    desaparecidos, sem contar nos incontáveis prejuízos ao meio ambiente.</p>
                <p>Conforme destacado anteriormente, não se cogita a possibilidade de utilização da
                    arbitragem para a apuração de eventual responsabilidade penal ou administrativa
                    decorrentes de danos ambientais, nem mesmo a análise da dimensão coletiva da
                    responsabilidade civil, mas sim a eventual aplicação desse método adequado de
                    resolução de disputas para apreciar a reparação e a indenização na sua dimensão
                    individual, que apresenta caráter privado e patrimonial.</p>
                <p>Nesse contexto, como exemplos os danos materiais e morais causados aos
                    particulares que foram vítimas dos desastres ambientais provocados pelo
                    rompimento das barragens de Mariana e Brumadinho, considerando que a via
                    judicial pode não representar o melhor caminho para resolver esses conflitos,
                    tendo em vista a complexidade da matéria e a possibilidade da interposição de
                    sucessivos recursos, o que pode ensejar uma espera de décadas para a obtenção de
                    uma solução definitiva para as questões eminentemente patrimoniais, com o
                    potencial de afetar pessoas que já eram consideradas hipossuficientes antes das
                    tragédias e que podem estar vivenciando situações dramáticas do ponto de vista
                    financeiro.</p>
                <p>Não se está aqui a defender que a arbitragem será sempre a melhor via para
                    solucionar todo e qualquer conflito, envolvendo a dimensão patrimonial e
                    disponível do dano ambiental, mas sim que a possibilidade da sua utilização não
                    pode ser descartada, especialmente diante das suas elencadas vantagens,
                    celeridade, escolha de árbitro(s) especializado(s), flexibilidade procedimental,
                    possibilidade de eventual redução de custos.</p>
                <p>Ressalta-se que, embora a arbitragem possa, ao final do procedimento, implicar
                    eventual redução de custos totais, em comparação com a justiça estatal, conforme
                    se mencionou neste estudo, a sua adoção implica despesas, especialmente no
                    início do procedimento, como o pagamento dos honorários dos árbitros, “custas da
                    arbitragem”, que compreendem os atos necessários para instauração,
                    prosseguimento e término do procedimento, além de gastos, envolvendo a
                    representação da parte, como a contração de um advogado para a defesa dos seus
                    interesses (<xref ref-type="bibr" rid="B32">CABRAL, 2019</xref>).</p>
                <p>Observa-se, ainda, que não existe qualquer fundamento legal para obrigar o Estado
                    a realizar o pagamento dos honorários do árbitro, o que constitui
                    responsabilidade das partes que elegeram a arbitragem como forma de resolução da
                    controvérsia (<xref ref-type="bibr" rid="B32">CABRAL, 2019</xref>), não
                    existindo base legal para se sustentar a existência de um garantia fundamental
                    de acesso à arbitragem, sendo possível, inclusive entre os que não se enquadram
                    como hipossuficientes nos parâmetros estabelecidos pela Defensoria Pública, a
                    ocorrência da denominada impecuniosidade, que consiste na ausência de recursos
                    financeiros para a instauração da arbitragem eleita pelas partes.</p>
                <p>Nessas situações, se não for possível reduzir os custos da arbitragem e
                    viabilizar a sua instauração, em último caso, o juiz deverá declarar a
                    ineficácia da convenção de arbitragem, permitindo o acesso da parte impecuniosa
                    ao Judiciário para a resolução da disputa (<xref ref-type="bibr" rid="B32"
                        >CABRAL, 2019</xref>).</p>
                <p>Feitas essas observações, para que se vislumbre a possibilidade da utilização da
                    arbitragem ambiental pela pessoa hipossuficiente, que se enquadra nos padrões de
                    renda estabelecidos pela Defensoria Pública<xref ref-type="fn" rid="fn13"
                        >13</xref>, é necessário: i) que sejam analisados apenas aspectos
                    patrimoniais e disponíveis; ii) que o hipossuficiente concorde com a utilização
                    do procedimento arbitral; iii) que a outra parte, que não é hipossuficiente,
                    aceite arcar com os custos e as despesas necessárias para a instituição da
                    arbitragem, ainda que seja prevista alguma forma de ressarcimento, ao final, de
                    acordo com a vontade das partes.</p>
                <p>Nessas situações, é possível que a adoção da via arbitral implique vantagens para
                    as duas partes, mesmo para aquela que está arcando com os custos iniciais do
                    procedimento. É importante ressaltar que, em analogia à justiça gratuita na
                    jurisdição estatal, como garantia fundamental ao acesso à devida prestação
                    jurisdicional (art. 5º, LXXIV, da CRFB/88), na arbitragem o Estado, por meio da
                    Defensoria Pública, poderá também custear, em sua parte, o processo arbitral,
                    quando o referido meio se mostrar mais adequado e célere na resolução do
                    conflito, envolvendo os hipossuficientes, na seara ambiental.</p>
                <p>Em processos com alto grau de complexidade, como nos mencionados casos de Mariana
                    e Brumadinho, a arbitragem poderá ser bastante atrativa para a resolução dos
                    aspectos patrimoniais e disponíveis dos danos causados, tanto para a empresa,
                    que poderá diminuir os custos e incertezas da via judicial, com a eleição de
                    árbitros especializados na matéria e a obtenção de celeridade na solução da
                    disputa, quanto para a parte lesada (mesmo hipossuficiente financeiramente, com
                    a participação efetiva da Defensoria Pública), que poderá ser ressarcida de
                    forma muito mais rápida do que geralmente se verifica na justiça estatal, na
                    qual a possibilidade de interposição de recursos torna incerta a duração do
                    processo.</p>
                <p>Mesmo em processos mais simples, a arbitragem poderá proporcionar os mesmos
                    benefícios, porém em qualquer caso, não haverá prejuízo na utilização da via
                    judicial para a discussão de outros tipos de responsabilidade (penal ou
                    administrativa) ou mesmo da dimensão coletiva da responsabilidade civil, que
                    apresenta caráter indisponível e não permite o uso da arbitragem.</p>
                <p>Cumpre, então, analisar se a Defensoria Pública deve atuar em favor do
                    hipossuficiente na arbitragem ambiental, considerando que, apesar de a
                    representação das partes por advogado no procedimento arbitral não ser
                    obrigatória, nos termos do art. 21, § 3º, da Lei de Arbitragem, é de todo
                    aconselhável esse auxílio profissional, que implicará no pagamento de honorários
                        (<xref ref-type="bibr" rid="B32">CABRAL, 2019</xref>).</p>
                <p>Nesse sentido, observa-se que, nos termos do art. 134, <italic>caput</italic>, da
                    CRFB/88, com a redação conferida pela EC nº 80/2014, a Defensoria Pública é
                    instituição permanente, essencial à função jurisdicional do Estado,
                    incumbindo-lhe a orientação jurídica, a promoção dos direitos humanos e a
                    defesa, em todos os graus, judicial e extrajudicial, dos direitos individuais e
                    coletivos, de forma integral e gratuita das pessoas necessitadas.</p>
                <p>Segundo <xref ref-type="bibr" rid="B67">Moreira (1992)</xref>, desde a entrada em
                    vigor da CRFB/88, os necessitados passaram a gozar da dispensa de pagamentos e
                    da prestação de serviços não apenas na esfera judicial, mas em todo o campo dos
                    atos jurídicos, incluindo a prática de atos extrajudiciais e a prestação de
                    serviços de consultoria envolvendo a informação e aconselhamento em assuntos
                    jurídicos.</p>
                <p>De forma semelhante ao que dispõe o art. 134 da CRFB/88, o art. 1º, da Lei
                    Complementar nº 80, de 12 de janeiro de 1994 (<xref ref-type="bibr" rid="B19"
                        >BRASIL, 1994</xref>), que organiza a Defensoria Pública da União e
                    estabelece normas gerais para a organização das estaduais, determina que cabe às
                    Defensorias a orientação jurídica, a promoção dos direitos humanos e a defesa
                    judicial e extrajudicial dos direitos individuais e coletivos dos necessitados,
                    na forma do inciso LXXIV do art. 5º da CRFB/88.</p>
                <p>O art. 4º, II, do mesmo diploma legal, com a redação conferida pela Lei
                    Complementar nº 132, de 7 de outubro de 2009 (<xref ref-type="bibr" rid="B20"
                        >BRASIL, 2009</xref>, <italic>online</italic>), dispõe que constitui função
                    institucional da Defensoria Pública, dentre outras “promover, prioritariamente,
                    a solução extrajudicial dos litígios, visando à composição entre as pessoas em
                    conflito de interesses, por meio de mediação, conciliação, arbitragem e demais
                    técnicas de composição e administração de conflitos”.</p>
                <p>Em reforço, o art. 108 da Lei Complementar nº 80/94, com a redação conferida pela
                    Lei Complementar nº 132, de 7 de outubro de 2009, prevê que incumbe aos membros
                    da Defensoria Pública, sem prejuízo de outras atribuições, a orientação jurídica
                    e a defesa dos assistidos no âmbito judicial, extrajudicial e
                    administrativo.</p>
                <p>Destarte, a Constituição Federal e a Lei Complementar nº 80/94 não deixam dúvidas
                    ao assegurar o acesso efetivo à justiça, por qualquer das suas portas de acesso,
                    inclusive a arbitragem, como um verdadeiro direito social básico, visando à
                    efetividade ideal da justiça, que somente pode ser obtida com a completa
                    paridade de armas (<xref ref-type="bibr" rid="B35">CAPPELLETTI; GARTH,
                        1988</xref>, p. 15), devendo ser assegurada aos mais pobres a assistência
                    integral da Defensoria Pública, quando participarem de um procedimento
                    arbitral.</p>
                <p>É importante registrar a relevante atuação da Defensoria Pública de São Paulo, no
                    conhecido acidente aéreo com uma aeronave da companhia TAM, em 2007, em um
                    programa de mediação extrajudicial, denominado “Câmara de Indenização 3054”, que
                    também contou com a participação do Ministério Público e da Fundação Procon do
                    Estado de São Paulo, bem como da Secretaria de Direito Econômico do Ministério
                    da Justiça, abrindo aos familiares das vítimas a possibilidade de uma opção
                    diversa da justiça estatal, que costuma demorar muitos anos para a decisão desse
                    tipo de conflito (<xref ref-type="bibr" rid="B63">MICHEL, 2011</xref>).</p>
                <p>Em 14 meses, o programa realizou cerca de 15 mil atendimentos a beneficiários e
                    aos seus advogados, com a formalização de acordos em 92% dos casos atendidos,
                    envolvendo 207 familiares e 45 vítimas do acidente (<xref ref-type="bibr"
                        rid="B63">MICHEL, 2011</xref>).</p>
                <p>No acidente aéreo ocorrido em 31/05/2009, envolvendo o voo 447 da companhia Air
                    France, que decolou do Rio de Janeiro com destino a Paris e caiu em pleno oceano
                    atlântico, o Ministério Público do Rio de Janeiro lançou o Programa de
                    Indenização 447 (PI 447), com a participação do Procon do Rio de Janeiro e da
                    Secretaria de Direito Econômico do Ministério da Justiça (<xref ref-type="bibr"
                        rid="B63">MICHEL, 2011</xref>).</p>
                <p>Se é verdade que as diferenças existentes entre os litigantes nunca serão
                    completamente eliminadas (<xref ref-type="bibr" rid="B35">CAPPELLETTI; GARTH,
                        1988</xref>), compete à Defensoria Pública afastar, dentro do possível,
                    qualquer obstáculo que possa comprometer o efetivo acesso à justiça, por
                    qualquer das suas portas de acesso, pelos mais pobres.</p>
                <p>Dessa forma, quando a parte hipossuficiente cogitar a utilização da arbitragem
                    como meio adequado para a resolução dos seus conflitos ambientais de caráter
                    exclusivamente patrimonial e disponível, deverá contar com a assistência
                    jurídica integral e gratuita da Defensoria Pública, mesmo antes da eleição dessa
                    “porta” de acesso à justiça, com o fornecimento de orientações jurídicas sobre
                    eventuais vantagens e desvantagens, devendo ainda ser adequadamente assistida
                    durante todo o procedimento.</p>
            </sec>
        </sec>
        <sec sec-type="conclusions">
            <title>6 CONSIDERAÇÕES FINAIS</title>
            <p>Este estudo apontou que o Poder Judiciário não representa a única porta de acesso à
                Justiça, considerada multiportas, constituindo apenas uma das formas de resolução de
                conflitos, que coexiste com outros métodos adequados, inclusive a arbitragem, que
                tem ganhado destaque na solução de controvérsias nas mais diversas áreas do direito,
                até mesmo, em conflitos envolvendo o meio ambiente, considerado, em uma primeira
                análise, um direito fundamental difuso e indisponível, levando-se em consideração os
                possíveis reflexos econômicos e materiais que decorrem dos danos ambientais, com
                respaldo da doutrina e de julgados que admitiram a sua utilização no TJMG e no
                STJ.</p>
            <p>Nessa perspectiva, as partes passam a contar com a possibilidade de eleição de mais
                uma via adequada para a solução das suas disputas, envolvendo questões ambientais,
                que pode ser mais vantajosa do que a justiça estatal em algumas situações,
                especialmente, naqueles casos que envolvem grandes desastres ambientais, como o
                rompimento das barragens localizadas nas cidades mineiras de Mariana e
                Brumadinho-MG, que costumam se arrastar por anos no Judiciário, em virtude da
                provável nterposição de uma série de recursos que irão tornar onerosa a disputa e
                prolongar o seu desfecho definitivo, podendo também ser vantajosa em conflitos de
                menor complexidade, conforme se apontou neste trabalho.</p>
            <p>Deve ser destacado, todavia, que somente poderão ser objeto da arbitragem questões
                exclusivamente patrimoniais e disponíveis do conflito, resguardando-se a competência
                do Judiciário e da Administração Pública para a análise de outros tipos de
                responsabilidade, como a penal e a administrativa, ou mesmo da dimensão coletiva da
                responsabilidade civil, não se cogitando a utilização da arbitragem nesses casos,
                diante da inarbitrabilidade desses direitos.</p>
            <p>No entanto, no que se refere exclusivamente às questões patrimoniais e disponíveis do
                dano ambiental, a arbitragem pode representar uma via adequada e vantajosa, diante
                da possibilidade de obtenção de maior celeridade, considerando que, salvo disposição
                em contrário, a sentença arbitral deverá ser proferida em até seis meses, e que,
                conforme se destacou, em média, mesmo as arbitragens mais complexas costumam ser
                decididas com maior rapidez do que se observa perante o Judiciário.</p>
            <p>Além disso, há a possibilidade de: i) escolha de árbitro ou de árbitros
                especializados em determinado tipo de dano ambiental específico, como em uma questão
                envolvendo mineração; ii) flexibilidade procedimental com a adaptação do
                procedimento às necessidades específicas da disputa, respeitando-se, por exemplo,
                diferenças regionais e culturais; iii) eventual redução de custos, especialmente dos
                custos totais até a solução final da contenda que inclui gastos com o pagamento de
                honorários advocatícios, custas e despesas processuais.</p>
            <p>Uma vez admitido o uso da arbitragem ambiental, verifica-se que os mais pobres também
                deverão ter a possibilidade de acesso a essa via adequada de resolução de conflitos,
                quando for viável a sua instauração, com as ressalvas apontadas nesta pesquisa,
                constituindo dever da Defensoria Pública atuar em seu favor em todas as fases do
                procedimento, inclusive antes da sua eleição, em decorrência da previsão
                constitucional da assistência judiciária integral e gratuita, mesmo perante as vias
                extrajudiciais, e do que estabelece o art. 4º, II, da Lei Complementar 80/94, com a
                redação conferida pela Lei Complementar nº 132, de 7 de outubro de 2009, a qual
                dispõe que constitui função institucional do referido órgão público promover, dentre
                outros meios extrajudiciais de solução de litígios, a arbitragem, garantindo-se o
                direito de opção aos financeiramente hipossuficientes do meio que considerarem mais
                vantajoso para a solução das suas disputas, depois de obterem todas as informações
                adequadas sobre as mais diversas portas que o sistema de justiça lhes oferece,
                especialmente das possíveis vantagens e desvantagens decorrentes da adoção de cada
                método disponível para resolver o seu caso concreto.</p>
        </sec>
    </body>
    <back>
        <fn-group>
            <title>NOTA</title>
            <fn fn-type="other">
                <p>Em atendimento à solicitação encaminhada, informamos que o artigo intitulado
                    “Atuação da defensoria pública na arbitragem ambiental” foi desenvolvido pelo
                    coautor Carlos Eduardo Montes Netto na disciplina de Doutorado ministrada pelo
                    coautor Prof. Dr. Lucas de Souza Lehfeld, denominada Seminários de Meio
                    Ambiente, Políticas Públicas e Sustentabilidade, no Curso de Doutorado da
                    Universidade de Ribeirão Preto - UNAERP, contando com a ampla orientação dos
                    Professores coautores Lucas e Olavo Augusto Vianna Alves Ferreira, esse último
                    especialista na área de arbitragem com diversos trabalhos acadêmicos publicados
                    e que foi orientador do coautor Carlos no Curso de Doutorado (concluído) com a
                    elaboração de tese sobre a aplicação da proporcionalidade na arbitragem
                    coletiva. Os três coautores idealizaram juntos o artigo e contribuíram
                    efetivamente com escrita e revisão do texto como um todo.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn1">
                <label>1</label>
                <p>De acordo com o <italic>site</italic> do Instituto Brasileiro de Geografia e
                    Estatística (IBGE), em outubro de 2020, o Brasil possuía uma população estimada
                    em 212 milhões de pessoas (<xref ref-type="bibr" rid="B57">INSTITUTO BRASILEIRO
                        DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2020</xref>).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn2">
                <label>2</label>
                <p>Segundo relatório do CNJ, em dezembro 2019, a Justiça brasileira apresentava 77,1
                    milhões de processos em tramitação (<xref ref-type="bibr" rid="B10">BRASIL,
                        2020b</xref>).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn3">
                <label>3</label>
                <p>No ano de 2014, a morosidade processual foi a principal reclamação recebida pela
                    Ouvidoria do CNJ (<xref ref-type="bibr" rid="B11">BRASIL, 2014</xref>).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn4">
                <label>4</label>
                <p>Novamente, entre janeiro e novembro de 2015, mais da metade das demandas para a
                    Ouvidoria do CNJ tiveram como objeto a morosidade processual (<xref
                        ref-type="bibr" rid="B12">BRASIL, 2015a</xref>).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn5">
                <label>5</label>
                <p>O Judiciário brasileiro encerrou o ano de 2016 com 79,7 milhões de processos em
                    trâmite (<xref ref-type="bibr" rid="B8">BRASIL, 2017a</xref>).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn6">
                <label>6</label>
                <p>Diante da ausência de superioridade da justiça estatal, não se deve usar mais o
                    selo da “alternatividade” para designar os outros meios de solução de conflitos
                        (<xref ref-type="bibr" rid="B43">DIDIER JÚNIOR; ZANETI JÚNIOR, 2018</xref>,
                    p. 39).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn7">
                <label>7</label>
                <p>De acordo com <xref ref-type="bibr" rid="B2">Alves (2012, p. 27)</xref>, no
                    direito romano, foi estimulada a arbitragem voluntária e facultativa,
                    tornando-se obrigatória entre as fases das ações da lei (<italic>legis
                        actiones</italic>) e do processo formulário (<italic>per
                    formulas</italic>).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn8">
                <label>8</label>
                <p>No direito brasileiro, estão presentes as Ordenações Filipinas, criadas em 1595 e
                    ratificadas em 1603.</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn9">
                <label>9</label>
                <p>“O custo de oportunidade é o ‘preço’ que designa o custo econômico de uma
                    alternativa que fora deixada de lado, que fora preterida, ou seja, o custo de
                    alocação alternativa daquele recurso escasso.” (<xref ref-type="bibr" rid="B81"
                        >TIMM; GUANDALINI; RICHTER, 2017</xref>).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn10">
                <label>10</label>
                <p>Tradução nossa: "Projeto de Acesso Global à Justiça".</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn11">
                <label>11</label>
                <p>Quanto ao Ministério Público, cabe a atuação de fiscal da lei (<italic>custos
                        legis et iuris</italic>), à Defensoria caberia a atuação como <italic>custos
                        vulnerabilis et plebis</italic> e <italic>amicus communitas</italic> (<xref
                        ref-type="bibr" rid="B73">SANTIAGO; MAIA, 2019</xref>, p. 15).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn12">
                <label>12</label>
                <p>As Defensorias Públicas dos Estados do Ceará e do Paraná haviam pleiteado,
                    expressamente, o ingresso nos autos como <italic>custos vulnerabilis</italic>
                    ou, subsidiariamente, como <italic>amicus curiae</italic> (<xref ref-type="bibr"
                        rid="B29">BRASIL, 2017b</xref>).</p>
            </fn>
            <fn fn-type="other" id="fn13">
                <label>13</label>
                <p>No estado de São Paulo, a Defensoria Pública estadual atende, em geral, pessoas
                    com renda familiar de até três salários mínimos por mês (<xref ref-type="bibr"
                        rid="B42">DEFENSORIA PÚBLICA DO ESTADO DE SÃO PAULO, 2020</xref>).</p>
            </fn>
        </fn-group>
        <ref-list>
            <title>REFERÊNCIAS</title>
            <ref id="B1">
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                        União</bold>: Disputa judicial pela posse do imóvel começou em 1895. 2 set.
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                        >https://agenciabrasil.ebc.com.br/justica/noticia/2020-09/supremo-decide-que-palacio-guanabara-pertence-uniao</ext-link>.
                    Acesso em: 31 out. 2020.</mixed-citation>
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                        Disputa judicial pela posse do imóvel começou em 1895</source>
                    <day>2</day>
                    <month>09</month>
                    <year>2020</year>
                    <date-in-citation content-type="access-date">31 out. 2020</date-in-citation>
                    <comment>Disponível em: <ext-link ext-link-type="uri"
                            xlink:href="https://agenciabrasil.ebc.com.br/justica/noticia/2020-09/supremo-decide-que-palacio-guanabara-pertence-uniao"
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                </element-citation>
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                    de Janeiro: Forense, 2012.</mixed-citation>
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                            <surname>ALVES</surname>
                            <given-names>José Carlos Moreira</given-names>
                        </name>
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                    <source>Direito romano</source>
                    <edition>15</edition>
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                    <year>2012</year>
                </element-citation>
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            <ref id="B3">
                <mixed-citation>ALVIM, José Manoel de Arruda. Sobre a natureza jurisdicional da
                    arbitragem. <italic>In</italic>: CAHALI, Francisco José; RODOVALHO, Thiago;
                    FREIRE, Alexandre (coord.). <bold>Arbitragem</bold>. São Paulo: Saraiva,
                    2016.</mixed-citation>
                <element-citation publication-type="book">
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                            <surname>ALVIM</surname>
                            <given-names>José Manoel de Arruda</given-names>
                        </name>
                    </person-group>
                    <chapter-title>Sobre a natureza jurisdicional da arbitragem</chapter-title>
                    <person-group person-group-type="compiler">
                        <name>
                            <surname>CAHALI</surname>
                            <given-names>Francisco José</given-names>
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                    <chapter-title>Cultura da sentença e cultura da pacificação</chapter-title>
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                    <source>Estudos em homenagem à professora Ada Pellegrini Grinover</source>
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